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Fundação Nadir Afonso

NADIR AFONSO - laurafonso@sapo.pt

Fundação Nadir Afonso

NADIR AFONSO - laurafonso@sapo.pt

22
Fev20

Já não se constrói assim! Demolição de Panificadora de Vila Real, projeto de Nadir Afonso. Crime dizemos nós.

Laura Afonso

Já não se constrói assim!
Exemplar de Património Industrial demolido para gáudio do LIDL e da Câmara Municipal de Vila Real.
Dia 1 - segunda-feira- Duas retroescavadora dão início à demolição. Dizem que quarta feira estaria tudo derrubado.
Dia 2 : As duas retroescavadoras não estão à altura da Panificadora, o betão é de boa qualidade.
Dia 3 - as duas retroescavadora junta-se um gigantesca máquina demolidora.
Dia 4 - As três máquinas demolidoras são impotentes para demolir a Panificadora.
Dia 5 - Uma quarta e colossal máquina demolidora chega vindo dos lados do Porto para arrasar a Panificadora. A Panificadora resiste. Já são cinco máquinas diabólicas. E estamos na sexta-feira.
Dia 6- A panificadora resiste e ficamos a aguardar.
Comprova-se que o  Lidl e a Câmara Municipal de Vila Real e a DGPC não conhecem o significado da palavra ruína.
O solidez da Panificadora de Nadir Afonso impõe-se perante a fragilidade da construção do Museu da Vila Velha e do Maat : Já não se constrói assim.
#boicoteaolidl
#somostodosnadirsempre
17
Fev20

Demolição da Panificadora de Vila Real, projeto de Nadir Afonso. Uma história de vergonha ou de sujeição do poder politico ao poder económico

Laura Afonso

Panificadora de Vila Real ou como o LIDL em Portugal não respeita as diretirizes do LIDL Internacional: projetos especiais para edificios únicos.

Perspectiva do Conjunto.jpg

 

Este ano de 2020 a Associação Alter Ibi e a Fundação Nadir Afonso fomos recebido na Presidência da República e no passado mês de Julho fomos recebida pela Comissão de Cultura, Comunicação, Juventude e Desporto da Assembleia da República, que apresentou a questão acerca da Panificadora de Vila Reai. Todos foram unânimes em apoiar a nossa posição e reconhecer a importância de salvaguardar este edifício.
Parece-nos, salvo o devido respeito, um contra-senso o parecer emitido em 17 de Janeiro de 2018, pela Secção do Património Arquitectónico e Arqueológico (SPAA), do Conselho Nacional de Cultura (CNC). O maior problema que se coloca à recusa de classificação, como se escreve no dia 3 de Maio de 2017, em informação inserida no ofício nº 67/FIS/2017 da Câmara Municipal de Vila Real (CMVR), são as demolições ilegais que danificaram o edifício.
Ora as demolições foram realizadas por volta das quatro horas da madrugada por uma retroescavadora que atingiu pontos cruciais. Assim, tudo indica que não tenham sido obra de vândalos, mas demolições premeditadas.
Nesta perspectiva, seria um rematado absurdo premiar um atentado contra o património com o imoral resultado de conseguir o seu objectivo através de uma tal acção. Aliás, a DRCN entende que «tendo presente as recentes demolições ilegais (…) pode ser entendido como um sinal de que causar danos a um imóvel para impedir a classificação compensa». 
Hoje, mais uma vez às 18:30 iniciaram as demolições.
Por outro lado, não deixa de ser interessante que no contrato-promessa de compra e venda celebrado entre o proprietário da Panificadora e o promitente-comprador exista uma cláusula que diz:
«Que o PRÉDIO se encontra onerado com um procedimento de classificação como bem de interesse municipal, registado sob a AP. 2761 de 2017.05.08 e que a PROMITENTE VENDEDORA se compromete a obter o cancelamento do mesmo antes da data de assinatura do contrato definitivo do presente Contrato-Promessa de Compre e Venda (doravante “contrato-Promessa);»
O contrato de compra e venda, como se pode verificar, é redigido poucos dias após as demolições ilegais e o conteúdo da cláusula acima descrita não tem sentido algum, numa perspectiva de legalidade e transparência dos procedimentos, pois um particular jamais se pode substituir à Administração Pública para se comprometer a obter o cancelamento do procedimento.
O pedido de informação 1218055 DSBC/DRCN/17 de 19-10-2017, referente ao processo DPC/CLS – 2608, relata que, através do ofício 745 de 17-10-2017, a Câmara Municipal de Vila Real informou a DGPC de que o estado do edifício constitui um perigo para a “saúde pública”. Paradoxalmente, no entanto, a CMVR não notificou o proprietário para proceder à limpeza do espaço.
A comunicação do Gabinete da Secretária de Estado da Cultura de 05/04/2019 reitera o parecer favorável à demolição e vai mais longe ao dizer que “no sentido de salvaguardar a memória do projectista, a DRCN determinou que o promotor, em articulação com a Câmara Municipal de Vila Real, deve desenvolver um projecto de enquadramento urbanístico para a rotunda contígua ao empreendimento e apresentar no interior do supermercado, nas áreas comuns, réplicas do autor”, como se estas entidades tivessem autoridade sobre os direitos de autor de Nadir Afonso.
Tudo isto nos leva a pensar que existe um propósito conjunto de fazer desaparecer a “Panreal”, e inadmissível que o próprio Estado português, que deveria defender o Património, se vergue aos interesses dos privados, invertendo a primeira norma inscrita na Parte da Organização Económica da Constituição da República Portuguesa (artigo 80º): “ O poder económico subordina-se ao poder político democrático”.

Sobre a pretendida e justa classificação da Panificadora de Vila Real, os argumentos apresentados pela DRCN que pesam a favor são os seguintes:
• «O interesse arquitectónico/artístico do imóvel, exemplar notável da linguagem modernista aplicada a programas industriais, projectado por uma figura cimeira da Arte Portuguesa do século XX;
• O esforço desenvolvido nos últimos anos pela tutela da Cultura, na identificação e protecção da arquitectura modernista (…);
• A existência de circunstâncias susceptíveis de acarretarem a perda do bem;»

«A existência de circunstâncias susceptíveis de acarretarem a perda do bem», vai ao encontro das nossas pretensões de salvaguarda do edifício. Entre a salvaguarda e a demolição, opta-se pela demolição para um parque de estacionamento!
O parecer emitido DRCN de 19 de Outubro de 2017 diz que, apesar das demolições ilegais, “a maior parte das estruturas ainda se conservam, nomeadamente os muros e pilares exteriores que dão forma ao edifício. A reconstrução é perfeitamente possível, tanto mais que existe projecto original. Tal como vimos sempre afirmando, a estrutura geral do edifício está intacta, a cobertura, uma estrutura metálica, é de fácil colocação.
Os argumentos contra a classificação são:
• O mau estado de conservação e os danos recentes à integridade do imóvel;
• A oposição do proprietário e da Câmara Municipal de Vila Real.»

Como vimos os danos maiores foram efectuados após o pedido de classificação, com a intenção de destruir certos elementos: “A permanência das estruturas principais do edifício e a existência do projecto original, que possibilita a reabilitação”. Logo o argumento do mau estado não poderá ser considerado válido e seria uma espécie de benefício para quem pretendesse, pela força, evitar a classificação.

Quando ao segundo argumento contra a classificação: “A oposição do proprietário e da Câmara Municipal de Vila Real”, pode inferir-se que a cláusula existente no Contrato Promessa Compra e Venda, em que o proprietário se compromete a obter o cancelamento do pedido de classificação, é a fonte dessa oposição do proprietário. Ora, como vimos, o proprietário não pode substituir-se à Administração Pública para obter o cancelamento.

Pelo que sabemos, só depois da intenção de compra pelo LIDL e projetada demolição da Panificadora a posição da Câmara Municipal de Vila Real se alterou. Na verdade, foi dito a Nadir Afonso em 2012, que a CMVR tinha a pretensão de reabilitar o imóvel e transformá-lo no Museu das Corridas de Automóvel de Vila Real, ideia muito meritória. E particularmente censurável, no plano ético e político, que uma promessa feita a um artista já falecido seja considerada irrelevante.
Cabe realçar que o parecer da SPAA refere ainda que “A previsão do que viria a acontecer é antiga, e até foi tema de Mestrado, em 2013, com o sugestivo título Panificadora de Vila Real, um moderno condenado à morte”.
Ora a Panificadora não foi objecto de uma tese mas de cinco teses de mestrado, quatro delas propondo a reabilitação, para além de ser referenciada noutras dissertações. No livro Nadir Afonso - Arquitecto (resultante de uma tese de Mestrado defendida na Universidade de Lisboa, em 2012), da autoria do arquitecto João Cepeda, dedica-se um capítulo a este edifício. Tudo isto é omisso no parecer emitido pela SPAA do CNC, como também nada é dito sobre o concurso de ideias que a própria Câmara Municipal de Vila Real lançou para reutilização da Panificadora. Este concurso foi ganho pelo arquitecto Vitório Leite de Vasconcelos e, por isso, recebeu a quantia de dez mil euros da Câmara Municipal de Vila Real.
Em suma, a Panificadora de Vila Real, repete-se, foi objecto de cinco teses de mestrado e um concurso de ideias, que só por si indiciam o seu valor arquitectónico:
• Rodrigues, Carolina Joana dos Santos, Panificadora de Vila Real - Um moderno condenado à morte, Universidade de Coimbra, 2013.
• Martins, Lara Filipa Borges de Carvalho Cardoso, O lugar do moderno na cidade contemporânea: projecto de reconversão da panificadora de Vila Real Lda. Universidade Lusíada do Porto, 2014.
• Meireles, Joana Salgueiro, Reúso do património do movimento moderno: a panificadora de Vila Real, Universidade do Minho, 2016.
• Morgado, Ana Luísa Alves, Reabilitação da panificadora de Vila Real, Universidade de Lisboa, 2017.
• José João Pinto Ventura, Panificadora de Vila Real: proposta de intervenção e reabilitação como prática legitimadora da construção social, Universidade do Porto, 2017.
• A Panificadora de Vila Real esteve na origem de um concurso de ideias “Regeneração Urbana – um Novo Impulso” promovido pela Câmara Municipal de Vila Real e o vencedor foi o arquitecto Vitório de Vasconcelos Leite.

O parecer saído da reunião de 17 de Janeiro de 2018, subscrito pela Secção do Património Arquitectónico e Arqueológico (SPAA) do Conselho Nacional de Cultura (CNC), propôs o “arquivamento do procedimento e o envio do processo à Câmara Municipal de Vila Real, para ponderação da classificação como imóvel de interesse municipal (IIM).”

Ora ao lermos os documentos notamos que está escrito no oficio assinado por David Ferreira a propósito da proposta de classificação e que tem um "nada a opor" do António Ponte:
“acrecentamos ainda estas reflexões:
Tendo presente as recentes demolições ilegais, o eventual arquivamento do processo baseado no mau estado de conservação e perda de integridade pode ser entendido como sinal de que causar danos a uma imóvel para impedir a classificação, compensa. È obviamente um mau sinal e mau precedente no quadro global das políticas de salvaguarda do património cultural.”
E acrescenta numa nota:
“A resposta da Lei para estas situações é de impor obras de conservação obrigatórias (artigo 46º da Lei 107/2001), que é também o mecanismo apontado pelo Conselho da Europa na “Convenção para a salvaguarda do Património da Europa”, que Portugal ratificou: A possibilidade de os poderes públicos intimarem o proprietário de um bem protegido a realizar obras ou de se lhe substituírem, caso este não as faça, (alínea c) do artigo 4º). Tem sido contundo muito rara a utilização deste mecanismo.”

Na sequência deste processo, demos andamento a um processo de Classificação como Património Municipal, que a Câmara Municipal de Vila Real que indeferiu com o pretexto de que se a DGPC tinha indeferido, ela também indeferia. A Câmara Municipal de Vila Real alga, aliás, não possuir condições financeiras para a aquisição. Porém, não se pretende que a autarquia adquira o edifício, mas apenas que proceda à sua classificação.
A Câmara Municipal de Vila Real adianta, em carta de ref. 002561 23-04-19 (à qual respondemos sem obter nova resposta), que se houver um comprador para a “Panreal” esta será uma aliada para a requalificação. Como, actualmente, o proprietário da Panificadora já não é a Percarmei espera-se que a Câmara Municipal de Vila Real honre a palavra dada, valorize o património e mostre a consideração que diz ter pela obra de Nadir Afonso.
Por outro lado, a política do Lidl em defesa do Património comunga do conceito “Lojas especiais em edifícios e lugares únicos”, como é possível ver no seu site https://www.realestate-lidl.pt/Conceitos-de…/Lojas-especiais.
Com efeito, lê-se no site do Lidl:
«Reagimos de forma individualizada às condições existentes – seja uma estação de comboios, um edifício histórico ou um estádio – integramos as nossas lojas na sua área envolvente e adaptamos os edifícios de acordo com a paisagem global, de forma a criarmos verdadeiro valor acrescentado. Encontramos soluções engenhosas para problemas específicos dos locais e garantimos aos nossos clientes a experiência de compras moderna e cómoda a que estão habituados.».
Sendo assim, por que existe uma tão grande obstinação por parte do Lidl e da Câmara Municipal de Vila Real em demolir o edifício? Seria de todo o interesse que o Lidl Norte e a Câmara Municipal de Vila Real cumprissem estes princípios e estabelecessem um diálogo para que a Panreal seja reabilitada. É certo Vila Real e o próprio Lidl ficariam a ganhar.

Por tudo o que aqui é exposto, tendo em conta a defesa do interesse público e a proteção da memória coletiva da cidade de Vila Real, através da preservação do seu património edificado, solicitamos a reabertura do processo de classificação da Panificadora de Vila Real, com projecto de Nadir Afonso.

26
Abr19

Panificadora de Vila Real, defesa da Cultura e do Património

Laura Afonso

"Os tempos que aí vêm, com o esforço de todos nós, não serão tempos de ódio, violência e demagogia, serão tempos de serviço público, de políticas contra as desigualdades, de defesa da Cultura e do Património do país". Eduardo Ferro Rodrigues, discurso comemorativo do 45º aniversário do 25 de Abril.

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26
Abr19

Movimento 'Pró Nadir' diz que 25 de Abril deu liberdade para defender o património

Laura Afonso

Movimento 'Pró Nadir' diz que 25 de Abril deu liberdade para defender o património

 

Lusa

Vila Real, 25 abr 2019 (Lusa) -- O movimento cívico 'Pró Nadir' disse que a Revolução de Abril proporcionou a liberdade de defesa do património ameaçado, como a panificadora desenhada pelo arquiteto Nadir Afonso, em Vila Real, que está risco de ser demolida.

Cerca de 30 pessoas participaram na quarta-feira à noite, em Vila Real, numa tertúlia seguida de vigília contra a demolição da antiga panificadora projetada pelo arquiteto e artista transmontano, um edifício que está degradado, de propriedade privada e que vai ser vendido a uma cadeia de supermercados.

A iniciativa foi promovida pelo movimento cívico 'Pró Nadir' que se opõe à demolição do edifício construído em 1965, ano em que Nadir Afonso abandonou a arquitetura para se dedicar por inteiro à pintura.

"O 25 de Abril trouxe-nos isso, a possibilidade de sermos nós próprios a defender o nosso património e é isso que nós vamos continuar a fazer nos próximos dias", afirmou Mila Simões de Abreu, investigadora da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) e que integra o movimento.

A também arqueóloga adiantou que "há um prazo retórico de cerca de um mês" até à concretização do contrato-promessa de compra e venda daquele espaço.

"Vai haver uma campanha eleitoral e vamos também participar nela ativamente, porque o Nadir Afonso tem uma dimensão internacional", garantiu.

Laura Afonso, viúva de Nadir Afonso, associou-se à vigília e esclareceu que está a lutar "pela preservação do edifício".

"Porque tem características únicas e é um belo exemplar do património industrial e Vila Real ficaria muito mais rica se preservasse esse edifício", sustentou.

Laura Afonso mostrou-se "triste" porque "o estado avançado de degradação da panificadora se deve a um ato voluntário".

"Quando uma retroescavadora entra lá, após o pedido de classificação do edifício, levanta suspeitas", referiu.

A arquiteta Ana Morgado escreveu uma tese de mestrado sobre a panificada e foi quem avançou com o pedido de classificação para imóvel de interesse público em 2016, que foi arquivado em 2018 pela Direção-Geral do Património Cultural (DGPC).

A DGPC considerou que o edifício já não reúne características para uma classificação de âmbito nacional.

"Considero que o património industrial moderno no nosso país ainda não é reconhecido, infelizmente", afirmou Ana Morgado.

A arquiteta disse que a "fachada, a cobertura e o forno" eram os "três elementos que sustentavam a classificação", notando que foram "precisamente esses três elementos que foram destruídos" durante o período de análise do pedido de classificação.

"A estrutura está toda lá, basta reconstruir a fachada, as coberturas e o edifício tem tudo para dar uma nova vida à cidade", defendeu.

Ana Morgado lembrou que Nadir Afonso trabalhou com os arquitetos Le Corbusier e Oscar Niemeyer e que a panificadora "tem referências de ambos".

O movimento lembrou ainda o pedido de classificação como imóvel de interesse municipal, que deu entrada na câmara no final do ano passado e ao qual não obteve resposta.

Contactada pela agência Lusa, fonte da cadeia de supermercados Lidl disse estar "em processo de aquisição do terreno onde se encontram as ruínas das antigas instalações da panificadora" e explicou que "planeia, com este empreendimento, renovar a loja existente em Vila Real, dando não só uma melhor experiência de compra aos seus clientes, como melhores condições de trabalho aos seus colaboradores".

"O projeto que surgirá na sequência desta aquisição está neste momento a ser desenvolvido. É intenção do Lidl incluir uma componente de valorização do artista em causa", salientou a fonte.

A panificadora de Vila Real esteve em funcionamento até à década de 90 do século passado, altura em que entrou em falência, tendo desde então estado ao abandono.

Este edifício é similar ao da panificadora de Chaves, construída em 1962. Os dois imóveis marcam a carreira de Nadir Afonso, por serem os seus últimos projetos de arquitetura.

12
Abr19

Projeto de Nadir Afonso em risco

Laura Afonso

https://expresso.pt/sociedade/2019-04-12-Licenca-para-demolir-edificio-de-Nadir-Afonso-e-ampliar-um-Lidl-revolta-viuva-do-artista?fbclid=IwAR0AcuIjzSFAT3HGDVupyHPyHrz-pPqfR9BW-8VpioilgFjviW5odV5zD60#gs.5a4h3s

Licença para demolir edifício de Nadir Afonso e ampliar um Lidl revolta viúva do artista

12.04.2019 às 16h38

Antiga Panificadora de Vila Real está devoluta e em avançado estado de degradação há duas décadas

D.R.

Edifício de 1965, devoluto e degradado, tem ordem para vir abaixo. Movimento Pró-Nadir anuncia vigília a 24 de abril

A família de Nadir Afonso e um grupo de ativistas admiradores da obra do artista, falecido em 2013, não se conformam com a anunciada demolição da antiga Panificadora de Vila Real, um dos dois edifícios projetados em Portugal pelo arquiteto discípulo de Le Corbusier e que trabalhou com Niemeyer, no Brasil. Construído em 1965, ano em que Nadir abandonou a arquitetuta para se dedicar por inteiro à pintura, o edifício, propriedade privada e abandonado há duas décadas e em avançado estado de degradação, corre o risco de vir abaixo para dar lugar à expansão do Lidl de Vila Real ou à construção do parque de estacionamento da superfície comercial.

A saga para preservar o edifício, similar ao da Panificadora de Chaves, terra natal de Nadir, já se arrasta há mais de quatro anos, quando Laura Afonso e o movimento Pró-Nadir tentou junto da Direção-Geral do Património Cultural (DGPC) que o imóvel fosse classificado de interesse nacional. O processo de classificação, aberto em abril de 2017, acabou por ser arquivado um ano depois pela DGPC, após parecer do Conselho Nacional de Cultura, que considerou que o edifício já não reúne características para uma classificação de âmbito nacional, face ao seu “estado deplorável”.

O Conselho Nacional de Cultura cita também a Câmara de Vila Real, que alerta que o edifício é um “foco de degradação ambiental, com sérios riscos para a saúde pública e propício à prática da toxicodependência”. Há uma semana, face ao chumbo do processo de classificação, a Direção Regional de Cultura do Norte (DRCN) confirmou que emitiu, por isso, parecer favorável ao “projeto de ampliação do empreendimento comercial adjacente à Panificadora”, embora referindo que a decisão de arquivamento de classificação “não deve ser lida como desvalorização nem do autor nem da sua obra”.

Para eternizar a memória do arquiteto e pintor, a DRCN, liderada por António Pontes, adverte que autor e obra devem ser objeto de valorização na envolvente e no próprio empreendimento comercial, cujo projeto deverá ser submetido a parecer da tutela. “É lamentável que o Governo e a autarquia privilegiem a ampliação de mais um supermercado a valorizar património que é uma referência histórica do século XX”, afirma Laura Afonso, que defende que o edifício tem todas as condições para ser requalificado e destinado a uso público. “Não precisa ser um museu ou casa de cultura, pode até dar lugar a um espaço como o Mercado da Ribeira, em Lisboa”, acrescenta a viúva de Nadir Afonso.

Réplicas entre couves e frangos

Inconformada com a falta de vontade política em preservar o legado de Nadir, Mila Simões de Abreu, docente do departamento de Geologia da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro uma das lideres do movimento Pró-Nadir, pediu uma audiência à secretária de Estado da Cultura, Ângela Ferreira, tendo como propósito a entrega de uma carta aberta dirigida ao Ministério da Cultura, petição assinada por meia centena de pessoas, entre as quais “Siza Vieira e Souto de Moura”.

Na resposta a que o Expresso teve acesso, datada de final de março, a secretaria de Estado recorda que a DGPC decidiu arquivar o processo devido sobretudo ao estado de degradação “que o bem apresenta” e ainda por a Câmara de Vila Real “não estar interessada em adquirir ou intervencionar o edifício”. Na missiva, a Secretaria de Estado sublinha ainda ter sido solicitado um parecer à DRCN, no âmbito das medidas de salvaguarda da ZEP do Alto Douro Vinhateiro, relativo ao processo de licenciamento de ampliação de uma superfície comercial, “obra que implica a demolição do imóvel”.

Perante os dois pareceres favoráveis à demolição, a Secretaria de Estado da Cultura adverte que o promotor da ampliação do Lidl deve desenvolver um projeto de enquadramento urbanístico para a rotunda contígua ao supermercado e apresentar no interior do espaço “réplicas da obra artística do autor”.

Revoltada, Laura Afonso diz ser inacreditável que uma entidade governamental de cultura prefira “destruir uma obra original de características únicas para colocar no seu lugar réplica sabe-se lá do quê entre couves, frangos e detergentes”. Mila Simões de Abreu considera “abominável a ideia que não lembraria ao diabo”, afirmando que o que está em causa é a destruição de um edifício singular no contexto inovador da arquitetura industrial de meados do século XX ”que reflete os valores do Movimento Moderno”.

Vigília pró-Nadir a 24 de abril

Embora há vários anos o grupo Pró-Nadir tente junto do município que “o emblemático edifício” de Vila Real seja salvaguardado - “pedidos a que a presidente da Câmara sempre foi indiferente” -, Mila Simões de Abreu adianta ao Expresso que o grupo e a família de Nadir “vão subir a parada”. O próximo passo é o envio à ministra da Cultura, Graça Fonseca, de uma carta com mais de meio milhar de assinaturas, a que se segue uma vigília a 24 de abril em frente à Panificadora.

“Espero que a ministra tenha outra sensibilidade, até porque Paula Silva devia ter pedido escusa para analisar a classificação do imóvel, dado ser filha da ex-mulher de Nadir Afonso”, refere a docente. O Expresso tentou obter um reação ao processo por parta da DGPC, que remeteu qualquer esclarecimento para a DRPN, que por sua vez endereçou qualquer questão para um comunicado do início de abril.

Ao Expresso, a autarquia, presidida pelo socialista Rui Santos, confirma ter recebido em dezembro último um pedido de classificação do imóvel como de interesse municipal, ao qual não deu resposta na altura por entender que “não se deveria pronunciar, dado que um processo semelhante se encontrava em análise pela Direção Regional da Cultura do Norte”.

Agora, face ao chumbo deste organismo e questionada se o município tem interesse em comprar, a Câmara de Vila Real refere que, mais importante que avaliar o interesse, “é fundamental avaliar a capacidade financeira para adquirir o imóvel, reabilitá-lo, dar-lhe uso e mantê-lo”, concluindo que o investimento “não é prioritário nem possível” dada a realidade financeira e a obrigação do gasto parcimonioso e responsável do erário público.

“A alocação de recursos a este projeto levaria necessariamente ao abandono de outros”, garante o município, que anunciou esta semana o investimento de € 1 milhão para a requalificação da zona da estação de comboios e criação de uma ciclovia. € 1 milhão é, segundo apurou o Expresso junto de fonte próxima do município, o valor de mercado do imóvel da discórdia e pelo qual o proprietário está disponível para vender, mas custará “quase o dobro a requalificá-lo”.

O Expresso tentou sem sucesso obter uma reação por parte da administração do Lidl sobre a compra da antiga Panificadora e projeto de ampliação.

Apesar de afastar a hipótese de compra, o executivo socialista adianta estar preocupado com a degradação acumulada há mais de 20 anos, sem qualquer intervenção. “É uma cicatriz na paisagem urbana e um problema de saúde e segurança pública, sendo utilizado como abrigo de indigentes, situação comunicada às autoridades, que juntamente com o proprietário e a Segurança Social têm a obrigação de resolver o problema”, frisa a Câmara por escrito, lamentando que o movimento Pró-Nadir tenha anunciado a existência de investidores interessados na aquisição para “reconstrução segundo a traça original”.

07
Mai18

Panificadora de Vila Real, um projeto de Nadir Afonso

Laura Afonso

http://www.jornalarquitectos.pt/pt/forum/cronicas/a-panificadora-de-nadir-afonso

 

  
05 / 2017

A panificadora de Nadir Afonso

Um caso de destruição misteriosa, precisa e contínua no Nordeste do país

Por Catarina Ribeiro e Vitório Leite

“Aos olhos de um indivíduo, de uma família, ou até de uma dinastia, uma cidade, uma rua, uma casa, parecem inalteráveis, inacessíveis ao tempo, aos acidentes da vida humana, a tal ponto que se julga poder contrapor e opor a fragilidade da nossa condição à invulnerabilidade da pedra.” 1

 

©merooficina
©merooficina

 

A destruição misteriosa

 

Na madrugada de domingo 8 de Abril de 2017, os vizinhos da antiga e abandonada fábrica panificadora de Vila Real, acordaram com um enorme estrondo. Alguns espreitaram pela janela e repararam que parte da fachada estava no chão. Possivelmente encolheram os ombros e voltaram para a cama, pensando que se tratava do início de mais uma reconstrução que, como muitas outras que se têm realizado no nosso país nos últimos anos, começara pela demolição integral do existente. Poderão não ter percebido nesse momento que a devoluta panificadora de Vila Real projectada na década de 1960 por Nadir Afonso ficou, após esse estrondo, em risco de desaparecer.


Os relatos destes vizinhos e as marcas no solo revelaram o recurso a máquinas pesadas, denunciando que a causa do desabamento da fachada, não fora mero vandalismo, como registado. 2

 

Estas demolições durante o fim-de-semana, não foram o primeiro acto de destruição. Uma breve visita ao local e a consulta de fotografias recentes revelam que, durante os últimos meses, a destruição tem vindo a assolar o interior deste edifício abandonado e inalterado há já vários anos. Uma demolição gradual, realizada em horários que permitem pouca visibilidade. Um empurrão para a destruição total que o tempo e o abandono, sozinhos e desamparados perante uma estrutura tão resistente, não estavam a conseguir levar a cabo.

 

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©Hugo Santos

 

A destruição precisa

 

Talvez por mero acaso, estas demolições tenham começado após ter dado entrada na Direcção Geral do Património Cultural (DGPC) uma candidatura para classificação do edifício a Imóvel de Interesse Público, entregue em Maio de 2016 e empreendida por uma estudante de arquitectura, Ana Luísa Morgado, natural de Vila Real, na sequência da sua tese de mestrado em arquitectura sobre o edifício.

 

Talvez por coincidência, a destruição esteja a incidir em elementos arquitectónicos salientados nessa candidatura, como o antigo forno de pão revestido a azulejos ou a caixilharia em betão que separa o espaço interior e apoia os grandes envidraçados da fachada frontal. Perante a “ameaça” da protecção, a destruição surge apontada aos elementos mais marcantes do edifício. 

Talvez por casualidade, os “vândalos” vão demolindo os elementos mais resistentes do edifício. As estruturas metálicas, os portões e os envidraçados, elementos mais valiosos para uma possível venda ou re-utilização, continuam intactos, enquanto as paredes de alvenaria de tijolo, as estruturas de betão e o forno em tijolo burro se encontram gravemente danificados.

 

E, talvez por se tratarem apenas de vicissitudes de menor importância, não se conhece qualquer queixa feita às autoridades após se ter detectado a destruição e o suposto vandalismo gradual que assola um edifício com provável interesse histórico.

 

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©Hugo Santos

 

A destruição continua?


Perante a relutância dos serviços da Câmara Municipal em responder àqueles cidadão que os contactaram, na segunda-feira após o fim-de-semana da demolição da fachada, um grupo de habitantes decidiu divulgar as demolições ilegais evidentes em vários meios de comunicação locais e nacionais, tentando obter uma reacção dos responsáveis políticos. Perante a pressão dos meios de comunicação, a reacção foi imediata, tanto por parte do município, que alegadamente mandou uma equipa de técnicos para investigar o acontecimento, como por parte da DGPC, que tomou medidas extraordinárias de aceleração do processo de classificação. 3

 

Tratando-se de um dos poucos vestígios de Arquitectura Moderna em Vila Real, que para além do seu valor patrimonial incalculável e reconhecível, foi destacado como um importante elemento da memória colectiva da cidade, é no mínimo insólito que os responsáveis políticos não tomem a iniciativa de o proteger ou recuperar.


Numa recente consulta à população de Vila Real, no âmbito de um concurso de ideias de regeneração urbana 4, promovido em 2015 pela CIP e pela Câmara Municipal, o edifício foi destacado como um ponto importante da cidade. Nesta consulta, a panificadora foi o elemento da cidade mais referenciado para uma possível recuperação. E a sua relevância terá sido tão evidente que, embora afastado do centro histórico da cidade, o edifício foi objecto do concurso de ideias de arquitectura para a regeneração urbana da cidade, com apresentação pública dos resultados em Setembro de 2015. Este concurso e o reconhecido interesse arquitectónico do edifício, sobre o qual se têm escrito vários artigos e realizado extensos trabalhos académicos, de nada parecem ter valido para a sua salvaguarda, nunca se tendo revelado da parte de nenhuma instituição da cidade, qualquer interesse ou intenção na sua recuperação.

 

As características morfológicas e construtivas da Panificadora são: a estrutura em betão armado que permite a configuração aberta e flexível das suas naves; as coberturas abobadadas, ligeiramente apontadas em diagonal, que facilitam a iluminação natural de todo o espaço e os revestimentos, correntes e funcionais, sugerem um projecto de reabilitação de custos controlados, com poucos recursos, e facilmente adaptável a diversos usos e programas. 

 

No entanto, os responsáveis políticos teimam em ignorar a opinião de grande parte dos habitantes que os elegeram e que desejam a recuperação deste elemento fundamental da história recente da sua cidade.


Hoje, ainda sem protecção, a panificadora projectada por Nadir Afonso continua à mercê dos “vândalos”, que tanto desejam a sua demolição. ◊

 

 
 
 
 
 
01
Mai18

Vamos Salvar o edificio da Panreal

Laura Afonso

http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=Panreal

Para: Ex.mo Sr. Presidente da Câmara de Vila Real, Dr. Rui Santos

O edifício da antiga panificadora PANREAL, erguido sob projeto do clamado transmontano Nadir Afonso, merece ser preservado como exemplo, não só, do génio de um grande artista, de um tipo de arquitetura de época mas também como visão de espaço de trabalho de uma profissão que vai desaparecendo.

O seu estado de destruição não é ainda irreversível mas não se deve esperar pelo longo processo de classificação, por parte das autoridades competentes, mas sim atuar imediatamente e fazer com que sejam abandonados quaisquer projetos que incluíam a sua demolição e transformação ou alteração do essencial da estrutura.

Analisar possíveis formas de aproveitamento do edifício e das fachada originais como um elemento cultural para usufruto da população, da cidade e dos visitantes (por exemplo café, padaria tradicional com decoração alusiva ao arquiteto e pintor).

A salvaguarda do património cultura tem que ser um imperativo do município, numa visão de preservação da memória material e no reconhecimento das características de todos os momentos da história da cidade.

A recuperação de tal espaço seria seguramente um mais valia para todos.

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