Segunda-feira, 7 de Maio de 2018

A propósito de uma visita ao Museu Nadir Afonso, de Siza Vieira

 
04/2018

Sobre Nadir.

A propósito de uma visita ao Museu Nadir Afonso, de Siza Vieira

Por João Cepeda

À margem do Tâmega plantado, um corpo branco estende-se à beira-rio, na cidade (outrora) romana de Chaves.

Ao longe, um volume de um único piso, em betão branco aparente, repousa subtilmente sobre um conjunto de lâminas que o erguem do chão, refugiando-se das águas que, de quando em vez, ousam inundar a zona ribeirinha.

Somos encaminhados por uma ligeira rampa em granito, à cota alta.

O percurso – que estabelece a transição entre o centro histórico e as margens do rio, enaltecendo-o – faz-se (quase) sempre de olhos postos neste corpo simples, mas de enorme plasticidade.

O silêncio da paisagem envolvente, e dos campos verdes, marca-nos a cadência dos passos.

 

 

© Fernando Guerra | FG+SG
© Fernando Guerra | FG+SG

 

 

Silenciosa era também a casa de Nadir, em Cascais.

Como naquelas tardes passadas no sofá, junto ao pátio interior, em redor de uma mesa, a falar de arquitectura, de pintura, de arte – de tudo.

Sempre certeiro, Nadir chegava e com uma frase (ou um olhar apenas), era capaz de mudar a temperatura da sala – sobretudo, de (me) fazer pensar.

 

O génio de Siza Vieira (escolhido pelo próprio Nadir Afonso) deu forma a este elegante volume que se desenvolve ao longo do rio e que, aqui e ali, evoca subliminarmente o imaginário artístico e pictórico de Nadir. Conferindo-lhe uma leveza particular, as lâminas que sobre-elevam o edifício – perpendiculares ao rio, mas de orientação desencontrada – são rasgadas por uma série de aberturas que, criando interessantes enquadramentos visuais, nos remetem para as formas primárias que tanto informaram a obra geométrico-abstraccionista de Nadir Afonso: quadrados, triângulos, arcos de volta perfeita.

 

Com o seu espírito mordaz e o seu sentido de humor desconcertante, Nadir questionava-me sobre a razão de eu estudar a sua obra de arquitectura, quando afinal, “tinha sido sempre um pintor”. Nadir Afonso sabia a resposta, tão presente no seu riquíssimo percurso profissional com mestres como Corbusier e Niemeyer, como nos seus modernos projectos edificados, principalmente em Chaves, a sua terra natal. Apenas fazia questão de marcar, sempre (e uma vez mais), a sua incondicional paixão pela pintura.

Nadir Afonso era um pintor apaixonado, e obsessivo. Vivia para pintar, pintava para se sentir vivo.

 

 

© Fernando Guerra | FG+SG
© Fernando Guerra | FG+SG
© Fernando Guerra | FG+SG
© Fernando Guerra | FG+SG

 

 

No interior do Museu, a simplicidade e unidade material mantêm-se.

O granito do chão exterior transforma-se em soalho de madeira.

Através de um fino rodapé em mármore branco, a madeira faz-se parede e tectos brancos, iluminados pontual e controladamente por grandes janelas horizontais que enquadram pedaços do exterior (uma chega a ter mais de 40 metros contínuos, abertos ao verde de algumas árvores de fruto, e aos azuis do céu e do rio).

O despojamento do desenho de Siza convoca-nos para um diálogo íntimo com a obra de Nadir, ali exposta nas grandes exposições que inauguraram o Museu.

 

Não raras vezes, Nadir dizia que “a harmonia não se concilia com razões de outra ordem, funcionais ou outras; quando se compromete... sujeita-se!”

Por isso mesmo, e partindo sempre da proporção e da harmonia como os sustentáculos fundamentais da beleza, e da arte, para Nadir a arquitectura nunca se podia configurar como uma arte, pois tem como primeiro objectivo responder a uma função, suprir uma necessidade.

 

Percorremos os grandes espaços do Museu, e facilmente percebemos que o controlo da luz interior foi alvo de um processo de estudo aturado e detalhado, algo a que Siza já nos habituou em tantos outros projectos seus, como em Serralves e em Marco de Canaveses, entre outros. O resultado é sublime. De facto, um dos espaços mais interessantes é uma das principais salas expositivas, iluminada indirectamente por uma luz zenital branca e translúcida que, depois de atravessar dois vãos em tijolo de vidro junto à cobertura, mergulha suavemente por um longo lanternim longitudinal contínuo.

 

 

© Fernando Guerra | FG+SG
© Fernando Guerra | FG+SG
© Fernando Guerra | FG+SG
© Fernando Guerra | FG+SG

 

 

Para além de pintor, e arquitecto, Nadir foi sempre um pensador – algo que sempre me fascinou, e que o distinguia dos demais. Procurava compreender o porquê do que fazia, e o porquê de o fazer da forma como fazia. No fundo, pintava para compreender a razão porque pintava. E defendia, vigorosamente, que toda a arte era regida por leis matemáticas que estão presentes na natureza, e que todo o artista emprega intuitivamente na sua obra. Isso – essa ânsia de liberdade de expressão, não só em termos artísticos como também filosóficos – trouxe-lhe inúmeros problemas, mas também fez com que se tornasse autor de uma das obras mais importantes do modernismo português.

 

Siza Vieira sonhou ser escultor antes de ser arquitecto; Nadir Afonso sonhou ser pintor antes de se ter tornado arquitecto.

A associação destes dois nomes maiores do panorama artístico e arquitectónico contemporâneo português resultou aqui em pleno, num conjunto singular que afirma toda a sua transcendência e modernidade. A clareza do desenho proposto por Siza aproximou de forma sublime este Museu a Nadir Afonso e à complexidade do seu trabalho e pensamento artísticos, celebrando assim, da melhor forma, a sua obra e filosofia, tão singulares quanto pioneiros.

 

Nadir já não pôde ver a sua Fundação, o seu Museu.

Tanto na pintura, como na arquitectura, foi um autor marcadamente moderno, insatisfeito com o seu tempo – e com o seu cunho (sempre) muito pessoal.

Durante toda a sua existência, nunca cuidou do seu sucesso, promoção ou reconhecimento, nunca cuidou de ter “uma carreira”. Homem de vida pública modesta, viveu de forma recatada, totalmente dedicado à sua incessante paixão pela pintura, e à criação da sua extensa obra plástica e teórica.

 

 

© Fernando Guerra | FG+SG
© Fernando Guerra | FG+SG

 

 

No meio do jardim exterior, uma pequena estrutura, insondável, qual escultura de David Umemoto. Siza deixou-a – serviu para os testes de afinação do betão branco aparente, durante a obra.

Caminhamos junto ao rio, pelas traseiras, pelo entorno do Museu.

Do tempo restou um extenso muro de ruínas, propositadamente mantido e consolidado. Os velhos muros de pedra assinalam o sentido do tempo, e preservam silenciosamente a memória daquele lugar, a que chamam “Longras”.

 

“O tempo não existe”, escreveu Nadir Afonso (O Tempo não Existe: Manifesto, 2010).

Não sabemos.

Mas a sua obra, essa sim, não teve, não tem, nem terá tempo.

Ficará sempre intemporal. ◊

 

  


 

 
 

publicado por Laura Afonso às 16:12
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Sexta-feira, 1 de Abril de 2016

Visita ao Museu Nadir Afonso em Chaves de um grupo de professores e alunos Faculdade de Arte e Arquitetura da Universidade de Linz, Áustria

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publicado por Laura Afonso às 23:01
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Quarta-feira, 17 de Fevereiro de 2016

Visita do ISCTE-IUL Departamento de Arquitectura e Urbanismo ao Museu Nadir Afonso, projecto de Álvaro Siza Vieira

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publicado por Laura Afonso às 16:21
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Segunda-feira, 21 de Dezembro de 2015

Visita da Faculdade de Arquitetura da Porto ao Museu Nadir Afonso em Chaves - Projeto de Álvaro Siza

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publicado por Laura Afonso às 19:19
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Quarta-feira, 21 de Outubro de 2015

Visita da Casa de Arquitetura ao Museu Nadir Afonso em Chaves - Projeto de Álvaro Siza

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publicado por Laura Afonso às 18:43
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Sexta-feira, 5 de Junho de 2015

Nadir Afonso: A obra de um Museu com a assinatura de Álvaro Siza.

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publicado por Laura Afonso às 17:59
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Quarta-feira, 19 de Novembro de 2014

MONOCLE MAGAZINE destaca Portugal e Chaves com o Museu Nadir Afonso.

http://www.lisbonlux.com/lisbon-news/2014/11/19/monocle-magazine-highlights-portugal/

MONOCLE MAGAZINE HIGHLIGHTS PORTUGAL

 

Monocle magazine - Portugal

 

Monocle magazine is highlighting Portugal in a 36-page pullout section of its December-January edition. It will be on newsstands starting on Thursday, November 20th, and focuses on a tourist destination beyond the sun and the sea. With the title “Portugal: A Monocle Travel Guide,” the magazine travels the country from north to south, from the new Nadir Afonso Museum designed by Siza Vieira in Chaves to the beaches of Algarve, with Arrifana being considered the best of them all for surfers.
Lisbon is given the largest number of pages (a total of six), with a selection of restaurants, cafes, hotels, shops and other attractions.
The magazine returns to Portugal in April for the “Quality of Life” conference in Lisbon.

REVISTA MONOCLE DESTACA PORTUGAL

A revista Monocle dedica 36 páginas a Portugal num suplemento da sua edição de Dezembro-Janeiro. Chega às bancas na quinta-feira, dia 20 de novembro, e apresenta um destino turístico que é mais que sol e praia. Com o título “Portugal: A Monocle Travel Guide”, a revista percorre o país de norte a sul, desde o novo Museu Nadir Afonso projetado por Siza Vieira em Chaves, às praias do Algarve, sendo a da Arrifana considerada a melhor de todas para os praticantes de surf.
Lisboa tem direito ao maior número de páginas (seis), com uma seleção de restaurantes, cafés, hotéis, lojas e outras atrações.
A revista regressa a Portugal em abril, para a conferência “Quality of Life” em Lisboa.

Fonte: http://www.lisbonlux.com/lisbon-news/2014/11/19/monocle-magazine-highlights-portugal/


publicado por Laura Afonso às 22:08
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