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Fundação Nadir Afonso

NADIR AFONSO - laurafonso@sapo.pt

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11
Ago08

Entrevista a Nadir Afonso: “A Geometria é fonte de harmonia”. Por: Patrícia Posse

Laura Afonso

Foto: Patrícia Posse Nadir Afonso

Pintor flaviense em Entrevista ao Mensageiro

Faz questão de se apresentar como transmontano aonde quer que esteja e defende a lógica matemática como alicerce de toda a obra de Arte. Eis as linhas-mestras de Nadir Afonso, o pintor flaviense que se tornou numa referência no panorama artístico contemporâneo. Formou-se em arquitectura na Escola Superior de Belas-Artes no Porto, mas a sua natureza sempre o impeliu para a pintura. É na tela que os seus dedos esguios se encarregam das pinceladas geométricas, traços distintivos do seu trabalho. Aos 87 anos, o artista fala do seu percurso, que conjuga, nos quadros, as leis universais da matemática para pintar a harmonia.

Mensageiro: Como começou a paixão pela pintura? Aos quatro anos desenhou um círculo na parede da sala… Nadir Afonso: Um ponto central equidistante dos pontos periféricos é uma forma perfeita, uma forma impressionante. Fui sempre muito atraído pela geometria, porque é um espectáculo de exactidão e ressoa no espírito como uma forte emoção de plenitude.

M: Sempre procurou esse “espectáculo de exactidão” nas suas obras? N.A: A essência da obra de arte está na exactidão matemática, que nos cria a emoção que transcende a obra inartística. Na Natureza, temos qualidades de perfeição, de evocação e de originalidade que todo o homem sabe reproduzir na tela. O que distingue o artista do homem comum é a quarta qualidade: a harmonia, que não está no objecto, mas na forma geométrica, que emprega leis matemáticas. É essa qualidade que suporta todas as outras e as eleva ao nível da arte. A harmonia realça as outras qualidades e sentimos a perfeição mais justa, sentimos a evocação mais sincera, sentimos a originalidade mais espontânea.

M: Como é que o artista aprende essas leis da Natureza? N.A: São apreendidas de uma maneira perceptiva, não são racionalizadas. Muitos artistas não têm consciência de que estão a fazer matemática. É uma intuição que os conduz à geometria, sem que estejam conscientes disso. Eu estou, porque passei a vida toda a magicar sobre isso.

M: Por detrás de um quadro, questionava-se com frequência? N.A: Comecei a querer compreender as coisas, a passar da intuição para o raciocínio claro das leis que regem a obra de arte. Nunca vi ninguém debruçado sobre estes problemas. Estetas tão conhecidos como Kant ou Hegel e tantos outros falam de tudo e não há uma palavrinha sobre as leis. Eles não se apercebem que há leis matemáticas na criação da obra de arte. Meditam, mas, como não trabalham com as formas, o essencial escapa-lhes.

M: Ao trabalhar com as formas, acabou por descobrir uma veia filosófica dentro de si? N.A: Trabalhando as formas, o homem é trabalhado por elas e depois, pouco a pouco, tenta elevar ao nível do raciocínio esses impulsos intuitivos. Foi o que eu fiz. Na arte, os estetas erram, todos eles, porque não vêem que há uma lei geométrica subjacente, que dá harmonia à obra de arte. A geometria é fonte da harmonia.

M: Afirmou que um arquitecto é sempre condicionado, porquê? N.A: Um arquitecto tem que responder a uma câmara municipal que controla onde ele pensa projectar a obra. Há uma série de condicionantes e isso limita a criatividade.

M: Que aprendizagens é que ficaram do convívio com os arquitectos Le Corbusier e Óscar Niemeyer? N.A: Ter que trabalhar em arquitectura foi penoso. É claro que aprendi muito com eles, mas se não fosse o meu trabalho pessoal isso arredondava em zero. Eles falavam e nós íamos ouvindo, mas não é por aí que se tem a percepção da obra de arte. A intuição própria, essa é que é a grande matriz. Só trabalhando as formas é que se acaba por perceber o mecanismo da criação.

M: A geometria das suas obras poderá ser uma herança do seu trabalho na arquitectura? N.A: Tenho impressão que não tem grande influência. Acho que trabalhando as formas, pouco a pouco, uma pessoa vai sentindo que há leis. Muitos pintores não têm essa preocupação de se auscultar, de se interrogarem a si próprios. Eu tive sempre essa preocupação.

M: A opção pelo abstraccionismo geométrico advém desse fascínio que tem pelas leis da matemática? N.A: Quando estou num café ou em qualquer parte e estou alheado do mundo, pego num lápis e vem sempre geometria. Surpreendo-me sempre a pôr um quadrado circunscrito e ver as harmonias que ressaltam desse jogo puramente arbitrário. Pouco a pouco, estou a procurar harmonias. Há um mundo infinito de harmonias na geometria e que as pessoas não se apercebem.

M: Foi para transmitir essas relações que fez acompanhar a sua obra de publicações? N.A: Tenho escrito muitos livros e ninguém dá importância nenhuma. Mas tenho a impressão de que com o tempo os meus livros vão acabar por ser lidos e compreendidos. A partir daí, as pessoas ficam a saber que sem trabalho pessoal não há obra de arte. Mais tarde ou mais cedo, os princípios vão penetrar nas escolas de Belas-Artes e os alunos já não vão convencer-se a si próprios que estão a lançar na tela o seu mundo interior, a sua alma, isso é uma vigarice.

M: “A Arte é um mistério.” Refutou esta afirmação de Einstein, mas fica tudo a descoberto num quadro? N.A: Não há nada de misterioso na Arte. Apreender as leis que regem uma obra de arte é uma diligência extremamente difícil. É preciso trabalhar durante dezenas e dezenas de anos para começar a sentir na obra de arte essas leis.

M: Há algum privilégio pelas cores? N.A: As cores também têm uma dimensão geométrica. Por exemplo, se o fundo é branco, ponho um triângulo preto. Tem uma certa força. Mas se, em vez do preto, ponho um amarelo, aquele triângulo perdeu a força, ainda que o tamanho seja o mesmo. A cor joga na composição como elemento geométrico e eu sinto isso.

M: Como é quando pega no pincel em frente à tela? N.A: Não sei o que vou pintar. A primeira forma é arbitrária, agora a segunda forma já está a jogar com a primeira.

M: Tem que haver relações de afinidade com todos os elementos do quadro? N.A: Tem que haver relações matemáticas. Por isso, a última forma é a mais difícil, já que tem uma série de tensões matemáticas a justificá-la. À medida que vou acrescentando formas, elas vão-se justificando umas às outras. A última forma é já o resultado matemático de todas as outras. É única, não há duas hipóteses.

M: Portanto, o mais difícil é chegar à última forma? N.A: A última forma é o diabo, porque é já solicitada pelas outras. A prova que há matemática é a última forma, que é difícil de apanhar. Estou 20 anos sem ver um quadro e hoje já o vejo melhor. O indivíduo vai perdendo as qualidades. Para pintar, canso-me, dói-me a coluna, mas sinto que a sensibilidade se vai agudizando.

M: Do seu período artístico, qual foi o que mais o marcou? N.A: Sou muito atraído pela geometria das cidades. Como viajei bastante, acho que é uma coisa interessante, pois são ricas em formas geométricas.

M: Mas disse: “é de minha casa que vejo todas as cidades”… N.A: É, porque no fundo acontece o seguinte: vamos a Berlim, vemos a cidade, ficam certas imagens. Mas, depois, é no atelier que isso se reforça, pinto aquilo que ficou. É em casa que uma pessoa retoca e compõe.

M: “O artista não realiza nenhum trabalho, enquanto o trabalho não realiza o artista”, palavras suas. Qual é o trabalho que o fez sentir mais realizado? N.A: O quadro “Apolo” [agora exposto em Boticas], que saiu facilmente. As leis ordenaram-se praticamente sem grande esforço, saiu quase espontaneamente. Às vezes, é o contrário.

M: Hoje contraria a afirmação do contínuo, que lhe recomendou o curso de arquitectura, de que “a pintura não alimenta o Homem”? N.A: A pintura pode alimentar o Homem. Ele enganou-se. Ainda me lembro das palavras dele: “vá para arquitectura” e eu, cobardemente, segui o seu conselho. Fiz mal. Incompatibilizei-me com o meu mestre, o professor Carlos Ramos, que até me reprovou, com o pretexto de que eu tinha falta de paciência. Geralmente, o arquitecto trabalha em estiradores horizontais, mas eu punha-o na vertical e pintava. Fiz muitos disparates enquanto era aluno de Belas-Artes, no Porto. M: O que é que fica de si em cada trabalho que produz? N.A: Depende. Se sentir que criei uma obra, fico satisfeito, pois ainda estou a criar coisas bonitas. Há orgulho nisto. Ou então, muitas vezes, penso que errei e considero que não fiz coisa nenhuma. Às vezes, as coisas encadeiam-se facilmente. Por sorte talvez, sai a eito. Mas é curioso, quando um quadro nos dá muito trabalho ficamos com a sensação de que é melhor que os outros, porque nos custou mais. Mas depois, reflexão feita, vemos que afinal o esforço nem sempre compensa.

M: Está inerente a cada quadro que pinta uma busca de equilíbrio? N.A: Há sempre uma busca inconsciente de equilíbrio. Muitas vezes, a pessoa repara que conseguiu e, no entanto, pareceu-lhe que não conseguiu. Há muitas hesitações na Arte, tactear até encontrar, sem nunca ter certezas. Só muito tarde é que me surpreendo a olhar para um quadro meu e a dizer “por acaso acertaste, como é que tu conseguiste isto?”. Patrícia Posse

Quadros XL de Nadir Afonso

Mostra inclui quatro obras inéditas A exposição “Nadir Afonso XL” foi inaugurada na última segunda-feira, dia 4, no átrio dos Paços do Concelho de Boticas. Esta é a primeira vez que o pintor flaviense expõe exclusivamente quadros de grande formato, que, desde o início deste século, caracterizam uma nova etapa do seu percurso artístico. “Estes quadros têm mais impacto sobre o público. O trabalho de composição faço-o a uma escala pequena, depois vou ampliando. Esse trabalho de ampliação já não é um trabalho artístico, é algo secundário, porque a elaboração da obra obedece a leis matemáticas e é feita à escala do guache. A ampliação é uma diligência puramente mecânica”, explicou Nadir Afonso. Os visitantes poderão contemplar nove quadros em acrílico sobre tela de grandes dimensões, quatro dos quais inéditos (“Dusseldorf”, “Kuala Lampur”, “Toronto” e “Sienna”), realizados já no século XXI. O artista fez questão de sublinhar que “a obra de arte é tacteada, é uma labuta, uma procura”. “Não é a inteligência que elabora a obra de arte, é a intuição artística, uma intuição puramente sensível que apreende as leis da matemática que estão na geometria das formas”, acrescentou. As obras em exposição pertencem ao acervo da Fundação Nadir Afonso e vão estar patentes de segunda a domingo, das 9h às 13h e das 14h às 17h30, até dia 29 de Agosto. No edifício da autarquia, os visitantes vão poder ainda apreciar aquele que é um dos maiores painéis em azulejo feitos pelo artista, com 11 por 2,4 metros.

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