Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Fundação Nadir Afonso

NADIR AFONSO - laurafonso@sapo.pt

Fundação Nadir Afonso

NADIR AFONSO - laurafonso@sapo.pt

16
Nov07

NADIR AFONSO, OU A VISIBILIDADE DA HARMONIA - João de Sá - «Terra Quente»

Laura Afonso

 

 

Muito me aprouve ter visto Nadir Afonso. Aprumado e desenvolto, com os seus 86 anos. Vagueando, atento e lúcido (o esboço de um sorriso feliz a indiciar encontros consumados em regiões superiores), entre os 27 quadros expostos - 20 acrílicos sobre tela e 7 guaches sobre o papel. Por vezes atingindo uma quase configuração anímica, como se estivesse refazendo um ou outro pormenor de uma tela, ou estes, galvanizantes, o estivessem recotando a ele.

Surpreendeu-me a sua vitalidade, o seu rigor de negrilho flaviense, a fluidez do seu discorrer. Há muitos, muitos anos que não víamos, apesar de andarmos sempre a combinar um encontro para irmos tomar uma "bica" a um café de Cascais e entabularmos conversações acerca do nosso Reino Maravilhoso e do não menos maravilhoso reino da sua arte superlativa. Mas... os dias deslizam com incontida velocidade e o nosso propósito nunca mais se cumpre. Fica a nossa amizade, que não embrandece. E as palavras de uma das suas últimas cartas de 2002: "Há longos anos que não vemos e contudo a nosso amizade perdura." E perdurará enquanto subsistir a nossa lembrança.
Esta recíproca estima vem de muito longe, de uma tarde esplêndida de Agosto, com Dionisio e Deméter em delírio, ao longo do vale de Chaves; de um passeio pelas margens do Tâmega, o artista dizendo Pessoa (Álvaro de Campos), para definir as cintilações da horta, em termos estésicos; de uma noite passada sob as ameixeiras do seu jardim, onde o ouvi narrar com desartifício, na companhia do comum amigo Carlos Rodrigues, lances da sua vida estuante, como se quisesse proceder a uma catarse que contribuísse para clarificar aspectos das suas teorias estéticas.
É que Nadir Afonso, além de artista da mais alta estripe, é, outrassim, um original investigador no domínio da estética, sendo autor de uma obra vasta e complexa onde avultam "Espacillimité", "La Sensibilité Plastique", "Mécanismes de la Création Artistique", "O Sentido da Arte", "Da Intuição artística ao raciocínio estético, "Van Gogh", a que a mesquinhez do nosso meio cultural tem sido alheia.
Não vislumbro, na moderna pintura portuguesa nenhum outro artista que venha erguendo uma obra de tão singular estatura e nos faculte, simultaneamente, uma tentativa (ou várias) de dilucidação das noites consteladas que presidem ao acto da criação.
Todo o artista produz numa região longínqua e solitária só acessível a iniciados. Temos de nos resignar com os indícios, ficando fora do nosso campo de análise o núcleo - espécie de castelo kafkiano - que, no começo, julgávamos acessível à nossa indagação.
Não se ajusta a esta atmosfera o proceder de Nadir. Acentuada vocação de partilha dos deslumbres, com quem quer que seja, que acompanham a génese da criação artística. Pretende mostrar-nos não só como nasce um quadro mas, também e principalmente, facultar-nos o porquê da sua aparição.

Não é nosso intuito, aqui e agora, enveredarmos por tão brumosos quão fascinantes caminhos. Vamos "esquecer" os mecanismos accionadas para que uma tela aconteça. Vamos admitir que só o artista tem acesso às qualidades que lhe permitem atingir, segundo a sua ordenação, a especifidade da Arte: perfeição, evocação, originalidade e harmonia.
Fixemo-nos nesta última etapa - Harmonia (nossa capacidade cognoscente a aproximar-se das mónadas leibnizianas e a descortinar a figura lendária de Pitágoras errando pelas praias de Crotona, de noite, na esperança de escutar a música das esferas...).
Harmonia é a característica que ressalta, de imediato, da contemplação dos quadros expostos. Tudo se nos oferece numa concertação intemporal, um Todo que é assim e não poderia ser de outra maneira. Nada a acrescentar-lhe ou a substrair-lhe. O tudo (to pan) é aquilo a que nada falta (Platão, "Teeteto"). São absolutos gerados por leis eternas, que presidem à sua execução, e assim ficaram numa majestade "franjada de infinito", como presenças libertas de uma realidade mais perfeita.
Nesta arquitectura do Inominado ocorre-me, naturalmente, a tradição pitagórica e a doutrina platónica. Será discutível a filiação, condescendo, mas não consigo desembaracar-me do seu enleio.

Na redução das coisas a números, como pretendiam os pitagóricos, convém sublinhar que "arithomós", que se relacionava com "harmonia", não era apenas a designação de número, mas "quantidade " equivalia a referir "forma", que tem "solenidade ideal dos grandes gestos na descoberta humana e rompe sem dúvida na "intuição" no seio do próprio movimento dialéctico da indagação dialógica". E Aristóteles, aludindo aos pitagóricos, escreve na "Metafísica" que todo o céu é harmonia e número.
Por outro lado, a passagem do sensível ao inteligível apoia-se, segundo Platão (diálogo "Ménon"), na demonstração geométrica. No "Protágoras" é admitido que a vida do homem necessita de cadência e harmonia. E no "Timeu", diálogo da senectude do filósofo, os quatro elementos são ordenados mediante a acção das "Formas" (determinações geométricas) e dos números.

É bem verdade que questões desta índole - coordenadas culturais laivadas de conceitos metafísicos e místicos, se prestam às mais diversas e controvertidas interpretações. Mas é mais denominador comum de todas elas um ideal de harmonia e equilíbrio estético que se evidenciam, como valor imutável, na obra imensa de Nadir Afonso.
De todo o modo, tentar reduzir a ontologia à fenomenologia com o argumento de que nada existe detrás do fenómeno, ou então, se algo há se assemelha à inapreensibilidade de gato Schrodinger, que sempre se esconde ou dissimula, é empobrecer o propósito metafísico de se penetrar no enigma, ou dar início ao elogio fúnebre da arte.
"Futuro" se intitula a valiosa mostra de pintura do egrégio artista flaviense. Considero premonitória a designação, já que, naturalmente, surge relacionada com o tempo que está para vir e que bem pode trazer-nos surpresas no âmbito da evolução estética, numa aproximação da harmonia da objectividade, de modo a tornar mais legível o "real". E estou a referir-me, concretamente, a três quadros expostos: "Procissão em Veneza", "Apolo" e "Gôndolas".

No entanto, a estrutura das cidades mágicas de Nadir e as linhas ondeantes dos contornos femininos remetem para os princípios já enunciados - espuma das profundidades a emprestar rosto à esfinge que ficará submersa para sempre. Recordemos, a propósito de corpos femininos, "Criselefantinas": recuo até à estatuária da Grécia antiga, às esculturas de marfim e vestes de ouro. Ou "Le Rêve" e "Estátuas Móveis", o velho Platão de novo a fazer-se ouvir: "uns pensam que são deuses, outros voam em sonhos e são como os pássaros", sugestões de estátuas aladas povoando espaços onde não habita a solidão.

"Futuro" de Nadir Afonso: apelo à descoberta duma pureza total, duma harmonia visível para que germine entre os homens a concórdia, o amor e a alegria.

João de Sá - «Terra Quente»

 

Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.

Sobre mim

foto do autor

Pesquisar

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

Links

Autobiografia_Nadir Afonso

Blogs

Sites Nadir Afonso

Links

blog.com.pt

Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2018
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2016
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2015
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2014
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2013
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2012
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2011
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2010
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2009
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2008
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2007
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D