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Mistérios, pintura de Nadir Afonso.
"Pedras no caminho?
Guardo todas, um dia vou construir um castelo..."
Fernando Pessoa
Nadir Afonso, o artista completo
Ao olharmos em redor do magnífico Museu nas margens do Tâmega pensamos na grandeza da obra de Nadir Afonso e o nosso espírito é porto sombrio perante o desfilar vertiginoso de uma torrente de belíssimas pinturas, enquanto ouvimos o eco das suas palavras longínquas cruzar os horizontes: “A minha vida é sobretudo relevante pelo que não acontece… é uma espécie de anti autobiografia”. Nadir Afonso é um artista conceptual nas áreas das artes plásticas, pensamento e arquitetura. Um artista completo que faz Arte, questiona a Arte e reflete sobre a Arte cujo desígnio de vida foi marcado pela obsessão da construção artística ancorada na busca do conhecimento, na criação da obra, no estudo e exploração pessoal da Geometria na Arte, uma vida marcada pelo infortúnio derivado das suas dificuldades e da sua incapacidade de promoção e integração social. Nadir, um homem cosmopolita que pertence à vanguarda da arte contemporânea e teve o privilégio de privar com figuras como Le Corbusier, Óscar Niemeyer, Victor Vasarely, Fernand Léger, Max Ernest, August Herbin, Cândido Portinari, Paul Ricoeur, entre outros. A obra pictórica e filosófica é de grande abrangência e erudição e possui uma abordagem contemporânea, prima pela originalidade e pela inovação. A par da pintura desenvolveu um estruturado trabalho de reflexão estética com profundidade intelectual, transdisciplinar, diferente das demais filosofias estéticas, pois transporta uma nova mensagem, uma nova maneira de encarar a arte e rege-se por princípios éticos. A teoria de Nadir Afonso constitui um modelo exegético do processo criativo, a ideia de que o suporte ou objeto representado (a que Nadir chama de evocação) são fundamentais para avaliação da obra de arte, constitui uma ideia vaga e banal. Quando a crítica fala em novos paradigmas ou em rutura referem-se exclusivamente ao objeto representado a que atribuem ou não a designação de obra de arte mediante critérios pouco objetivos. Ora para Nadir essa qualidade (evocação) é secundária e daí acentuarmos o carácter original desta teoria. Para Nadir existem atributos qualitativos e quantitativos, os atributos qualitativos próprios da função diferem dos atributos quantitativos da forma; enquanto os fatores da forma, os atributos quantitativos são os mais difíceis de apreender e geram na sua morfometria a obra de arte, os fatores da função, atributos qualitativos alteram-se no espaço e no movimento. É necessário o espectador abstrair-se do tema da pintura para valorizar apenas aquilo que Nadir chama de morfometria, a organização das formas ou dos objetos segundo uma estrutura matemática e estabelecer a diferença entre compreender e sentir. Assim por exemplo o esteta compreende o círculo quando vê um ponto equidistante a todos os pontos periféricos, o artista – dotado de sensibilidade – sente o círculo mesmo quando o esteta não o vê porque o círculo pode ser sentido através de uma série de pontos ou referências, e assim não está presente o círculo está presente a lei do círculo. A Arte, uma criação superior da humanidade é abordada através de uma visão universal e tratada no seu todo. Os principais conceitos da nomenclatura do pensamento nadiriano que estabelecem a sua filosofia são: -As condições reais de existência como origem das significações. Defende-se que a origem das significações não está no sujeito como advoga o idealismo nem no objeto como defende o materialismo, mas nas condições de existência que dá sentido ao sujeito e ao objeto ao estabelecer laços entre o movimento evolutivo e a dualidade sujeito-objeto. -Objeto geométrico. As leis geométricas geram o objeto geométrico. -Ilusões de ótica e erros de perceção. As ilusões de ótica, nomeadamente a de Muller-Lyer são analisadas e justificadas e estabelece a diferenciação entre meio geométrico e meio físico. -Intuição. A intuição criadora percebe a lei para além da forma aparente. -Qualidades da obra de arte. Analisa e define das qualidades da obra de arte – evocação, perfeição originalidade e exatidão. -Atributos qualitativos e atributos quantitativos. Os atributos qualitativos estão associados à função dos objetos e os atributos quantitativos dizem respeito à forma. -Leis de integração e desintegração do espaço. As leis matemáticas podem ser representadas, sugeridas, esboçadas através de formas incompletas, imprecisas, cambiantes. O julgamento não depende da razão, mas da perceção. -Conceito de morfometria. Para entender o conceito de morfometria é necessário distinguir os atributos imutáveis próprios dos espaços e distingui-los dos atributos mutáveis próprios dos objetos passiveis de evolução natural. -A exatidão. A exatidão é dada pelos fatores quantitativos, é sentida pela sensibilidade e compreendida pela razão. É uma qualidade intrínseca das formas universais. -As leis. As leis são entidades preexistentes, elas regem e agem no Universo. A filosofia de Nadir estabelece relação com as modernas teorias científicas e obriga a perceber em que medida a ciência e a arte estão interligadas através de uma matemática intuitiva. - A origem da geometria; Husserl entende que o proto geómetra foi o primeiro homem a ter o sentido geométrico, para Nadir o proto geómetra foi o primeiro homem a contemplar a lua e o sol, por exemplo, e através desse olhar reproduzir essas formas. Estabelece quatro etapas na evolução da geometria: Origem da geometria: o objeto sol; - Origem do ato geométrico: a representação do objeto; 3. Origem do sentido geométrico: perceção do centro da figura; 4. Origem da consciência geométrica: definição do objeto círculo; - A relação entre leis preexistentes na Natureza e na obra de arte. A lei não é elemento passivo. -A noção de tempo e duração. O tempo como entidade não existe, o tempo é uma relação entre espaço e movimento. A duração não precisa de um espaço e de um movimento que lhe corresponda. - O Universo e o Nada. Para melhor compreendermos o Universo seria útil compreender a sua inexistência, operação difícil pois a espécie humana nunca foi sensorialmente confrontada com o Nada. - Define as diferenças entre matemática intuitiva e matemática racional. - À luz das modernas a matemática intuitiva da obra de arte defendida por Nadir Afonso é consistente com a matemática intuitiva de John Nash. - A matemática da obra de arte é irredutível a equações e o teorema da incompletude de Kurt Gödel dá apoio e confirmação aos seus estudos estéticos de Nadir Afonso. - A relação entre composições estruturalmente intrincadas, as formas geométricas de dimensão fracionária, a desconstrução das curvas complexas na obra de Nadir e a geometria de Benoît Mandelbrot. O conhecimento do pensamento do artista implica relacionar e interpretar o fenómeno artístico em função da sua filosofia estética: - A Sensibilidade Plástica anuncia que a arte é um espetáculo de exatidão e a harmonia uma presença matemática, a emoção de beleza resulta do trabalho produzido no espírito pelas relações harmoniosas entre as formas e as cores, desprovido de qualquer assentimento com o mundo exterior. - Os Mecanismos da Criação Estética é um tratado de reflexão estética, onde enuncia os mecanismos da criação a partir da análise das qualidades da natureza, os sentimentos como reflexos dessas qualidades, a harmonia como qualidade de fonte geométrica, a perfeição, as relações da arte com a sociedade, a emoção de beleza que a exatidão traduz transcende a pura representação do objeto. - O Sentido da Arte propõe uma abordagem da arte diferente da habitual, faz a análise dos mecanismos da criação artística a partir de quatro princípios: sob a forma de condições de existência, as leis preexistem no cosmos; universo e obra de arte mantêm com as condições de existência relações similares; é mediante a sensibilidade a essas condições que o criador concebe, o seu objeto. - Universo e o Pensamento é um livro de reflexão a partir do reconhecimento relacional de que as leis da matemática estão presentes em todo o Universo e são as mesmas que regem a obra de arte. Este trabalho é sobretudo um exercício de inteligência em que confronta perseverantemente o seu trabalho sobre a perceção e aponta as fragilidades dos nossos sentidos na avaliação do Universo. - O livro Sobre a Vida e sobre a Obra de Van Gogh analisa o percurso do pintor holandês tendo presentes dois fatores: O meio em que se desenrola a vida do artista, e considera necessário observar a distinção entre o que existe como produto de uma facticidade estética e o que preexiste no seio da Natureza. -Da Intuição Artística ao Raciocínio Estético, alerta para a facilidade em se confundir a simples visão dos objetos com a observação fenomenal das suas leis pois é na observação atenta que toda a verdadeira obra de arte encontra a sua especificidade significativa: os princípios geométricos constantes. -Em As Artes: Erradas Crenças e Falsas Críticas refuta a subjetividade e a linguagem da alma, proclama a racionalização da Arte e demonstra que conceitos como belo é vago e nada define. Os mecanismos da criação artística apenas serão compreendidos mediante a conjugação inalienável desses dois fatores. -Nadir Face a Face com Einstein. Explora o problema das leis universais e das leis morfométricos essenciais à criação artística, ao mesmo tempo que se defrontam as leis da física que fundam o paradigma einsteiniano. Nadir mostra como a Física clássica confundiu cadência de tempo com ritmo de tempo. - Em Manifesto, o tempo não existe reúne textos onde mostra a diferença entre as qualidades quantitativas da arte e as qualidades qualitativas próprias dos objetos, discorre sobre a matemática essência da arte e a sua visão derradeira do mundo. A obra de pintura é vasta e permanece na sua maioria inédita. Todo o criador que visa a universalidade terá de ter uma obra diferenciadora, original. Enumeramos de seguida os principais períodos: Modernismo: Fazem parte deste período representações paisagísticas do contexto rural e passagem para uma estética expressionista com predomínio citadino. Surrealismo: Os primeiros trabalhos de tendência abstracionista situam-se nos inícios dos anos 40 recorrendo a formas acentuadamente surrealistas. Geometrismo ou pré-geométrico: A depuração e a presenças das formas geométricas primárias, determinam as composições. Período Barroco: A arquitetura barroca da cidade do Porto, está na origem desta fase. Os elementos pictóricos são trabalhados numa síntese de três a quatro cores com recurso a linhas com curvas e contracurvas e espiraladas. Período egípcio: A principal característica deste período são os frisos em que a linha curva convive com a linha reta numa evocação à civilização egípcia. Espacillimitado: Em Paris participa no Mouvement onde partilha as suas pesquisas dos fenómenos de ótica e cria composições que apelida de "Espacillimité". Período Ogival: A presença de ogivas, arcos, contracurvas ou de duplas calotes são a característica mais marcante deste período. Período Perspético: acentua-se o carácter pós-moderno da obra, os elementos geométricos proliferam, ao mesmo tempo que se vão reduzindo em dimensão e aumentando em quantidade. Período Organicista: realce para os contrastes, e a profusão de formas e cores. O artista desenvolve uma linguagem embebida de referências biomórficas, com recurso a formas curvas integradas e desintegradas que determinam a unidade formal. Período Antropomórfico: podemos considerar uma subdivisão do período organicista com evocação explícita da figura feminina. Período Fractal: esta fase acentuadamente pós-minimalista, a linha assume uma liberdade total. As linhas percorrem livremente a superfície do quadro onde os negros contrastam com as cores vivas e luminosas. Realismo Geométrico: O realismo geométrico é uma interceção dos períodos organicista e fractal. Ao realismo baseado na observação, na experimentação associa-se a uma componente geométrica definidora da ciência da exatidão.
“Volto às terras laboradas ao ritmo das mais ancestrais pulsações; mas este regresso ao passado vai direito às origens de toda a criação universal: as normas de arte se desvelam sob o signo duma ação orientada no sentido da natureza. E, no entanto, na minha juventude e ainda durante algum tempo, fui imprudentemente atraído pelo brilho das grandes cidades: dos imensos centros de Arte trago na bagagem alguns desgostos da cultura e desilusões da tão celebrada grandeza dos homens”, escreveu Nadir, o menino que sonhava ter asas e voar para quem a sua vida foi “sobretudo relevante pelo que não acontece…”.
Laura d’Assunção Afonso