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A Utopia de Nadir — Fátima Vieira
VICE REITORA DA UNIVERSIDADE DO PORTO
Sempre me fascinou o contributo da arte para o desenvolvimento humano – a obstinação dos artistas em desenhar mundos novos através de experiências estéticas surpreendentes. E é isso que sinto sempre que penso na Máquina Cinética .
Olho para a Máquina Cinética e vejo um manifesto sobre a liberdade. Por trás da Máquinaestá o questionamento da condição estática da pintura. O desafio havia sido lançado à vanguarda artística pela galerista parisiense Denise René em 1955, quando organizara a exposição “Le Mouvement”: pode a arte ter movimento real? A resposta de Nadir não tardou: criou a Máquina em 1956 e deu-a a expor a René em 1957.
A Máquina Cinética é composta por uma tela com figuras geométricas pintadas, colocada ao redor de dois cilindros verticais. Acionados por um mecanismo, os cilindros fazem mover a tela da esquerda para a direita – e assim, em loop, a tela transforma-se numa “pintura animada em estado de instalação”, como diz António Quadros Ferreira. Na Máquinaencontramos a pintura a ser mais do que pintura: através da tridimensionalidade transforma-se em escultura; e adotando o movimento como princípio estruturador, aproxima-se do cinema.
Embora a Galeria de Denise René seja normalmente referida em relação à obra cinética de Nadir por ter sido o local onde primeiro foi exposta, confesso que sinto particular atração pelo nome do segundo contexto da exposição da Máquina, o Salon des Réalités Nouvelles de 1958. São como as utopias, essas realidades novas, vislumbres de todas as possibilidades.
O projeto curatorial da Exposição 100 anos Nadir, Inéditos, assumido pelo Prof. António Quadros Ferreira, coloca a Máquina Cinética no centro do discurso sobre a vida e obra de Nadir. É, curiosamente, no contexto de uma exposição com mais de uma centena de trabalhos que nunca antes foram apresentados ao público, a única obra conhecida de Nadir. Quando visitamos a exposição, compreendemos que a proposta do Curador faz sentido: toda a obra anterior de Nadir parece desenvolver-se em direção à revolução artística que é proposta pela Máquina Cinética, tal como a obra posterior se afirma como desdobramento desse vislumbre utópico.
O belíssimo design da exposição, com assinatura de Mariano Piçarra e Luís Carvalho, ajuda-nos à leitura da obra de Nadir. Na primeira sala, debruçamo-nos sobre os móveis azuis com os Estudos de Nadir como quem espreita um passado íntimo; na segunda sala, reconhecemos a centralidade da Máquina Cinética e o pensamento teórico que lhe subjaz; na terceira sala, somos confrontados com uma tela inesperada, Da Ocidental Praia Lusitana. Estranhamos: onde está o Nadir que conhecemos? Mas depois, olhando atentamente, discernimos na grande tela contra o azul forte da parede aquilo que vimos no início: a tela faz a súmula de um percurso vibrante e por isso nela encontramos figuras humanas, barcos, o mesmo traço que caracteriza as cidades, as cores que descobrimos na secção de Estudos, quando Nadir está a trabalhar no Brasil, e um horizonte comum convidando à exploração.
Estou muito grata a Nadir por me ter mostrado, com a sua Máquina Cinética , como o espaço da pintura pode ser ilimitado e o tempo da pintura infinito. E estou muito reconhecida à Fundação Nadir Afonso, na pessoa da sua Presidente, a Dr.ª Laura Afonso, por ter confiado à Reitoria da Universidade do Porto estes trabalhos inéditos de Nadir. Esta exposição foi um presente que, graças à Fundação Nadir Afonso, a Universidade do Porto pôde oferecer à comunidade académica e à cidade. Através dela, Nadir regressou à Escola do Porto, onde se formou, bem como à cidade cujo barroco reinventou ao longo da sua extensa obra. Entretanto, a Máquina Cinética continua imperturbável entre nós, na sua condição de realidade nova, convidando-nos a fazer bom uso da nossa liberdade humana para explorarmos novas formas de ver e reinventar o mundo.