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Fundação Nadir Afonso

NADIR AFONSO - laurafonso@sapo.pt

Fundação Nadir Afonso

NADIR AFONSO - laurafonso@sapo.pt

14
Jun11

Aniversário

Laura Afonso

 

 

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,

Eu era feliz e ninguém estava morto.

Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,

E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,

Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,

De ser inteligente para entre a família,

E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.

Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.

Quando vim a.olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

 

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,

O que fui de coração e parentesco.

O que fui de serões de meia-província,

O que fui de amarem-me e eu ser menino,

O que fui - ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...

A que distância!...

(Nem o acho... )

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

 

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,

Pondo grelado nas paredes...

O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),

O que eu sou hoje é terem vendido a casa,

É terem morrido todos,

É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

 

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos ...

Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!

Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,

Por uma viagem metafísica e carnal,

Com uma dualidade de eu para mim...

Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

 

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...

A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,

O aparador com muitas coisas - doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado,

As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos. . .

 

Pára, meu coração!

Não penses! Deixa o pensar na cabeça!

Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!

Hoje já não faço anos.

Duro.

Somam-se-me dias.

Serei velho quando o for.

Mais nada.

Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira! ...

 

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

 

 Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)

13
Jun11

Jules Supervielle

Laura Afonso

Le portrait

Mère je sais très mal comme l’on cherche les morts,
et je m’égare dans mon âme, ses visages escarpés
et ses ronces de regards.
Aide-moi à revenir
de mes horizons qu’aspirent des lèvres vertigineuses.
Aide-moi à être immobile,
tant de gestes nous séparent, tant de lévriers cruels!
Que se taisent les voyages qui déchirent mes années
en sanguinolents paysages
et ces têtes en offrandes
qui viennent frapper la nuit à la portière des trains!
Que je penche sur la source où conspire ton silence,
dans un reflet de feuillage que ton âme fait trembler.

Ah! sur ta photographie
je ne puis pas même voir de quel côté souffle ton regard.
Nous nous en allons pourtant, ton portrait avec moi-même,
si condamnés l’un à l’autre
que notre pas est semblable
dans ce pays clandestin
où nul ne passe que nous.
Nous montons bizarrement les côtes et les montagnes
et jouons dans les descentes comme des blessés sans mains.
Mes souvenirs ont goût de carton qui auraient pu être
vivants.
Un cierge coule chaque nuit gicle à la face de l’aurore,
l’aurore qui chaque jour sort des draps lourds de la mort,
à demi asphyxiée
tardant à se reconnaître.
Je te parle durement ma mère.
Je parle durement aux morts parce qu’il faut leur parler dur,
debout sur des toits glissants,
les deux mains en porte-voix et sur un ton courroucé
pour dominer le silence assourdissant
qui voudrait nous séparer, nous les morts et les vivants.

J’ai de toi quelques bijoux, comme des fragments de l’hiver
qui descendent les rivières.
Ce bracelet fut de toi qui brille en la nuit d’un coffre
en cette nuit écrasée où le croissant de la lune
tente en vain de se lever
et recommence toujours, prisonnier de l’impossible.

J’ai été toi si fortement, moi qui le suis si faiblement
et si rivés tous les deux que nous eussions dû mourir ensemble
comme deux matelots mi-noyés et s’empêchant l’un l’autre de nager,
et se donnant encore des coups de pied dans les profondeurs
de l’Atlantique
où commencent les poissons aveugles
et les horizons verticaux.

Parce que tu as été moi
je puis regarder un jardin sans penser à autre chose
choisir parmi mes regards
et aller à ma rencontre.
Peut-être reste-t-il encore
un ongle de tes mains parmi les ongles de mes mains,
un de tes cils mêlés aux miens;
un de tes battements s’égare-t-il parmi les battements de
mon cœur,
je le devine entre tous
et je sais le retenir.
Mais ton cœur bat-il encore? Tu n’as plus besoin de cœur.
Tu vis séparée de toi comme si tu étais ta propre sœur,
ma morte de vingt-huit ans dans ton sourire sans amarres,
me regardant de trois-quarts
avec l’âme en équilibre et pleine de retenue.
Tu portes la même robe que rien n’usera plus,
elle est entrée dans l’éternité avec beaucoup de douceur
et change parfois de couleur, mais je suis seul à savoir.
Cigales de cuivre, lions de bronze, vipères d’argile
autour de moi rien ne respire.
Le souffle de mon mensonge
est seul à vivre, seul à vivre à mille lieues à la ronde.
Je cherche dans des coffres qui m’entourent brutalement
mettant les ténèbres sans dessus dessous
dans des caisses profondes profondes
comme si elles n’étaient plus de ce monde,
et voici à mon poignet
le pouls minéral des morts
celui-là que l’on entend si l’on approche le corps
des strates du cimetière.

 
 
Jules Supervielle

 

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  • Laura Afonso

    Centro de Artes Nadir Afonso em Boticas

  • Anónimo

    E estas chávenas podem ser adquiridas onde? :)

  • Anónimo

    Gostaria de saber se tem mais imagens sobre os IV ...

  • Laura Afonso

    Sim, divindade egípcia, Thot ou Thoth

  • Mario Ricca

    Será THOTH , a divindade egípcia ?

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