Terça-feira, 12 de Abril de 2016

Dernières êtres

© Nadir Afonso.39L_Guache_Nadir_1129.jpg

 


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Quarta-feira, 30 de Setembro de 2015

Tágides

Tela Tágides jpg  94x130cm.jpg

 © Nadir Afonso.


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Domingo, 28 de Junho de 2015

Tâmega

Tamega1.jpeg

© Nadir Afonso.

 


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Quarta-feira, 25 de Fevereiro de 2015

«Do Siza para Nadir»

http://www.archdaily.com.br/br/762742/fundacao-nadir-afonso-nil-chaves-de-aproximacao-alvaro-domingues

Do Siza para Nadir: a arquitectura é uma arte / Álvaro Domingues

Quando nos lameiros do Tâmega o gado ruminava nos prados, não se imaginaria que aí se pudesse erguer esta poesia branca, uma rigorosa geometria em betão pousada sobre uma sequência de finas paredes-lâmina que a levantam do chão e a defendem das águas se a enchente do rio galgar as margens. À volta, os muros toscos e as ruínas de casas de gados e gente ecoam o mundo que houve e que aí fica como memória de tempos e de outros trabalhos e dias; as nogueiras, as macieiras ou as figueiras completam essa atmosfera-paisagem a que um certo artista dizia estar preso por hereditariedade transmontana.

 

O Nadir Afonso na sua tese de final de curso dizia que a arquitectura não é uma arte. Pode ser que a maior parte não seja! Se Siza Vieira apenas soubesse ou quisesse proteger a pintura de Nadir, bastava que cuidasse que não lhe chovesse em cima e que o sol não lhe desbotasse as tintas. Mas não…, pois não só espalhou formas elementares de círculos, triângulos e quadrados no labirinto das lâminas – um jogo de leis nos espaços que estão na natureza e no espíritos dos homens, dizia assim Nadir da emoção artística -,  como lhe dedicou uma obra de arte que é um espectáculo de plenitude, de exactidão, de absoluto. Não tarda nada e a harmonia matemática do Nadir virá aqui habitar com todas as suas cores e espaços ilimitados…

 

 
 
Cita:Joanna Helm. "Do Siza para Nadir: a arquitectura é uma arte / Álvaro Domingues" 24 Feb 2015. ArchDaily Brasil. Acessado 25 Fev 2015. <http://www.archdaily.com.br/br/762742/fundacao-nadir-afonso-nil-chaves-de-aproximacao-alvaro-domingues>

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Sábado, 14 de Fevereiro de 2015

Nadir Afonso

 

0205.JPG

Fotografia de Pereira de Sousa 

 


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Quinta-feira, 1 de Maio de 2014

NADIR AFONSO


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Sábado, 8 de Março de 2014

Chaves, Fundação Nadir Afonso

 


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Quinta-feira, 5 de Dezembro de 2013

Nadir Afonso


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Segunda-feira, 25 de Novembro de 2013

Tributo a António Ramalho Eanes


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Sábado, 23 de Novembro de 2013

Nadir Afonso

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Domingo, 25 de Agosto de 2013

Nadir Afonso

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Domingo, 26 de Maio de 2013

Nadir levanta voo

«Um pouco mais de sol - eu era brasa.

Um pouco mais de azul - eu era além.

Para atingir, faltou-me um golpe de asa...

Se ao menos eu permanecesse aquém... »

Mário de Sá Carneiro


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Terça-feira, 7 de Maio de 2013

Nadir

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Segunda-feira, 22 de Abril de 2013

Nadir Afonso

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Sábado, 26 de Janeiro de 2013

Mourinho visto por Nadir

 

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Domingo, 16 de Dezembro de 2012

Era uma vez um menino chamado Nadir


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Quinta-feira, 13 de Dezembro de 2012

Nadir e os filhos Artur e Augusto

 


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Quarta-feira, 12 de Dezembro de 2012

Nadir Afonso e o filho Artur.

 

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Terça-feira, 16 de Outubro de 2012

Nadir Afonso e Amândio Silva


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Sexta-feira, 21 de Setembro de 2012

Friso

© Nadir Afonso

 


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Domingo, 22 de Julho de 2012

Nadir Afonso expõe em Roma

 

Fonte: http://lauraboechat.arq.br/blog/?p=805

 

Nadir Afonso expõe em Roma

O Museu Carlo Bilotti, em Roma, inaugura a exposição Nadir Afonso – Architetto Pittore Collezionista. A mostra foca a produção de Nadir Afonso expondo também obras de amigos artistas com quem o pintor português trabalhou. Entre eles figuram nomes como Pablo Picasso, Max Ernst, Cândido Portinari, Giorgio de Chirico, Max Jacob ou Fernand Léger. Assim, a exposição revela Nadir como um artista amigo de artistas, focando um período da segunda metade do século XX.

 

A nossa amiga/correspondente B. N esteve lá e registrou tudinho para a gente, confiram:

 

 

 

Reparem na influência arquitetônica em suas obras….

 

 

Pablo Picasso

 

Candido Portinari

 

Giorgio de Chirico que muito influenciou o expressionismo do artista.

 

Giorgio de Chirico

 

Esta homenagem insere-se num conjunto de iniciativas no sentido de comemorar os 90 anos do Mestre com uma série de exposições de nível internacional.

A mostra ficará em Roma até o dia 30 de agosto, depois irá para Veneza para a Bienal de arquitetura seguindo para Paris e após Rio de Janeiro. Que dará destaque à figura de Nadir Afonso como arquiteto e artista e a sua colaboração aos dois grandes arquitetos: Le Corbusier e Oscar Niemeyer.

FICHA DA EXPOSIÇÃO
Local: Museo Carlo Bilotti Aranciera di Villa Borghese
Viale Fiorello La Guardia – 00197 Roma
Patente ao público de 19 de Julho a 30 de Setembro de 2012
Catálogo: Editora Carlo Cambi
Horário: De terça a domingo, das 9.00 às 19.00

 

 

Fonte: http://lauraboechat.arq.br/blog/?p=805

 

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Sábado, 21 de Julho de 2012

Exposição de Nadir Afonso no Museo Carlo Bilotti em Roma II

 

Presidente da Trienal de Milão em conversa com Francesca Sylvestre

 


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Domingo, 17 de Junho de 2012

Nadir em Chaves

Fotografia de Pereira de Sousa

 

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Sábado, 28 de Abril de 2012

Prima, 1938.

 

 

© Nadir Afonso.

 


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Quinta-feira, 19 de Abril de 2012

Nadir Afonso no Rio de Janeiro. 1952.

 


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Terça-feira, 6 de Março de 2012

Nadir levanta voo.

 

 

 


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Domingo, 11 de Dezembro de 2011

Arhus por Nadir Afonso

 

 

© Nadir Afonso
 
 

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Terça-feira, 6 de Dezembro de 2011

Nadir Afonso e o irmão Lereno

 

 Nadir (de pé) aos 4 anos de idade e o irmão Lereno (sentado)

 

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Quinta-feira, 7 de Abril de 2011

Poema em linha recta

 

 

 

 

 

 

 

Poema em linha recta

 

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado,
Para fora da possibilidade do soco;
Eu que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu que verifico que não tenho par nisto neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo,
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu um enxovalho,
Nunca foi senão - príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana,
Quem confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde há gente no mundo?

Então só eu que é vil e erróneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.


Álvaro de Campos (heterónimo de Fernando Pessoa)

 

 

 


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Terça-feira, 29 de Março de 2011

Conversando ...


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Domingo, 13 de Fevereiro de 2011

«Casa sobre o mar»

Trabalho de autoria de Nadir Afonso que mais tarde Fernando Távora apresentou (em 1952) no CODA como se de um trabalho seu se tratasse. Nesta data Nadir encontrava-se no Brasil.

 

 

 

Referências a este trabalho em:

 

 http://arkitectos.blogspot.com/2007/03/arq-fernando-tvora-do-porto-para-o.html

 

http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?t=425889

 

http://blaubooks.com/auctions/bid/528

 

 

 

 

«Nadir Afonso depois de terminar os estudos de arquitetura no Porto, trabalha no ateliê de Le Corbusier e com um projecto realizado sob orientação deste arquiteto defendeu tese no Porto em 1948.

Encontrando-se a passar uma temporada em Portugal, Nadir cruzou-se com Fernando Távora que lhe pede para o acompanhar ao seu ateliê (na Praça D. Filipa de Lencastre) e lhe ajudar a resolver um problema num projeto de arquitetura, apelo ao qual Nadir Afonso acede imediatamente.

Nadir Afonso tinha larga prática do exercício de arquiteto e como é dito já tinha obtido o diploma de arquiteto e até uma perspectiva do Bloco de Marselha de sua autoria realizada no atelier de Le Corbusier tinha sido publicada na revista «L'Architecure d'Aujourd'hui».

Fernando Távora pertencia a uma família influente e com grande facilidade de angariar projetos apesar de ainda não ser arquiteto.

Fernando Távora convida Nadir para com a sua prática e experiência concretizar uma série de projetos. Lembramos que nem Távora nem Lanhas (colega da Escola de Belas-Artes e de ateliê de Távora) possuíam prática de arquiteto ou os respectivos diplomas. Fernando Távora obtem o diploma com a apresentação do trabalho acima reproduzido e Lanhas só obteria o diploma em 1963. (http://arquivo.fba.up.pt/alumniF.html)


Na breve passagem de Nadir Afonso por esse ateliê trabalhou como arquiteto e a sua acção não esteve reduzida a “aguarelador”, “desenhador” ou qualquer outro trabalho subalterno.

Nesse período Nadir Afonso elaborou pelo menos três projetos de arquitetura antes de partir novamente para Paris. Nenhum dos projetos foi construido e recentemente soubemos que Fernando Távora assumiu a autoria dos projectos sem referir Nadir Afonso. Fernando Távora apresentou para CODA um trabalho concebido e realizado por Nadir Afonso e quem atribui o papel de “aguarelador" e sem dar qualquer conhecimento ao autor.

Nadir Afonso regressa a Paris em finais de 1950 onde volta a trabalhar com Le Corbusier e nunca mais viu Fernando Távora.

Nadir Afonso nunca se interessou em realizar carreira de arquiteto mas isso não é razão para outros se apropriarem do seu trabalho».


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Terça-feira, 30 de Setembro de 2008

As Amantes de Lucifer de Nadir Afonso

© Nadir Afonso


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Segunda-feira, 11 de Agosto de 2008

Entrevista a Nadir Afonso: “A Geometria é fonte de harmonia”. Por: Patrícia Posse

Foto: Patrícia Posse Nadir Afonso

Pintor flaviense em Entrevista ao Mensageiro

Faz questão de se apresentar como transmontano aonde quer que esteja e defende a lógica matemática como alicerce de toda a obra de Arte. Eis as linhas-mestras de Nadir Afonso, o pintor flaviense que se tornou numa referência no panorama artístico contemporâneo. Formou-se em arquitectura na Escola Superior de Belas-Artes no Porto, mas a sua natureza sempre o impeliu para a pintura. É na tela que os seus dedos esguios se encarregam das pinceladas geométricas, traços distintivos do seu trabalho. Aos 87 anos, o artista fala do seu percurso, que conjuga, nos quadros, as leis universais da matemática para pintar a harmonia.

Mensageiro: Como começou a paixão pela pintura? Aos quatro anos desenhou um círculo na parede da sala… Nadir Afonso: Um ponto central equidistante dos pontos periféricos é uma forma perfeita, uma forma impressionante. Fui sempre muito atraído pela geometria, porque é um espectáculo de exactidão e ressoa no espírito como uma forte emoção de plenitude.

M: Sempre procurou esse “espectáculo de exactidão” nas suas obras? N.A: A essência da obra de arte está na exactidão matemática, que nos cria a emoção que transcende a obra inartística. Na Natureza, temos qualidades de perfeição, de evocação e de originalidade que todo o homem sabe reproduzir na tela. O que distingue o artista do homem comum é a quarta qualidade: a harmonia, que não está no objecto, mas na forma geométrica, que emprega leis matemáticas. É essa qualidade que suporta todas as outras e as eleva ao nível da arte. A harmonia realça as outras qualidades e sentimos a perfeição mais justa, sentimos a evocação mais sincera, sentimos a originalidade mais espontânea.

M: Como é que o artista aprende essas leis da Natureza? N.A: São apreendidas de uma maneira perceptiva, não são racionalizadas. Muitos artistas não têm consciência de que estão a fazer matemática. É uma intuição que os conduz à geometria, sem que estejam conscientes disso. Eu estou, porque passei a vida toda a magicar sobre isso.

M: Por detrás de um quadro, questionava-se com frequência? N.A: Comecei a querer compreender as coisas, a passar da intuição para o raciocínio claro das leis que regem a obra de arte. Nunca vi ninguém debruçado sobre estes problemas. Estetas tão conhecidos como Kant ou Hegel e tantos outros falam de tudo e não há uma palavrinha sobre as leis. Eles não se apercebem que há leis matemáticas na criação da obra de arte. Meditam, mas, como não trabalham com as formas, o essencial escapa-lhes.

M: Ao trabalhar com as formas, acabou por descobrir uma veia filosófica dentro de si? N.A: Trabalhando as formas, o homem é trabalhado por elas e depois, pouco a pouco, tenta elevar ao nível do raciocínio esses impulsos intuitivos. Foi o que eu fiz. Na arte, os estetas erram, todos eles, porque não vêem que há uma lei geométrica subjacente, que dá harmonia à obra de arte. A geometria é fonte da harmonia.

M: Afirmou que um arquitecto é sempre condicionado, porquê? N.A: Um arquitecto tem que responder a uma câmara municipal que controla onde ele pensa projectar a obra. Há uma série de condicionantes e isso limita a criatividade.

M: Que aprendizagens é que ficaram do convívio com os arquitectos Le Corbusier e Óscar Niemeyer? N.A: Ter que trabalhar em arquitectura foi penoso. É claro que aprendi muito com eles, mas se não fosse o meu trabalho pessoal isso arredondava em zero. Eles falavam e nós íamos ouvindo, mas não é por aí que se tem a percepção da obra de arte. A intuição própria, essa é que é a grande matriz. Só trabalhando as formas é que se acaba por perceber o mecanismo da criação.

M: A geometria das suas obras poderá ser uma herança do seu trabalho na arquitectura? N.A: Tenho impressão que não tem grande influência. Acho que trabalhando as formas, pouco a pouco, uma pessoa vai sentindo que há leis. Muitos pintores não têm essa preocupação de se auscultar, de se interrogarem a si próprios. Eu tive sempre essa preocupação.

M: A opção pelo abstraccionismo geométrico advém desse fascínio que tem pelas leis da matemática? N.A: Quando estou num café ou em qualquer parte e estou alheado do mundo, pego num lápis e vem sempre geometria. Surpreendo-me sempre a pôr um quadrado circunscrito e ver as harmonias que ressaltam desse jogo puramente arbitrário. Pouco a pouco, estou a procurar harmonias. Há um mundo infinito de harmonias na geometria e que as pessoas não se apercebem.

M: Foi para transmitir essas relações que fez acompanhar a sua obra de publicações? N.A: Tenho escrito muitos livros e ninguém dá importância nenhuma. Mas tenho a impressão de que com o tempo os meus livros vão acabar por ser lidos e compreendidos. A partir daí, as pessoas ficam a saber que sem trabalho pessoal não há obra de arte. Mais tarde ou mais cedo, os princípios vão penetrar nas escolas de Belas-Artes e os alunos já não vão convencer-se a si próprios que estão a lançar na tela o seu mundo interior, a sua alma, isso é uma vigarice.

M: “A Arte é um mistério.” Refutou esta afirmação de Einstein, mas fica tudo a descoberto num quadro? N.A: Não há nada de misterioso na Arte. Apreender as leis que regem uma obra de arte é uma diligência extremamente difícil. É preciso trabalhar durante dezenas e dezenas de anos para começar a sentir na obra de arte essas leis.

M: Há algum privilégio pelas cores? N.A: As cores também têm uma dimensão geométrica. Por exemplo, se o fundo é branco, ponho um triângulo preto. Tem uma certa força. Mas se, em vez do preto, ponho um amarelo, aquele triângulo perdeu a força, ainda que o tamanho seja o mesmo. A cor joga na composição como elemento geométrico e eu sinto isso.

M: Como é quando pega no pincel em frente à tela? N.A: Não sei o que vou pintar. A primeira forma é arbitrária, agora a segunda forma já está a jogar com a primeira.

M: Tem que haver relações de afinidade com todos os elementos do quadro? N.A: Tem que haver relações matemáticas. Por isso, a última forma é a mais difícil, já que tem uma série de tensões matemáticas a justificá-la. À medida que vou acrescentando formas, elas vão-se justificando umas às outras. A última forma é já o resultado matemático de todas as outras. É única, não há duas hipóteses.

M: Portanto, o mais difícil é chegar à última forma? N.A: A última forma é o diabo, porque é já solicitada pelas outras. A prova que há matemática é a última forma, que é difícil de apanhar. Estou 20 anos sem ver um quadro e hoje já o vejo melhor. O indivíduo vai perdendo as qualidades. Para pintar, canso-me, dói-me a coluna, mas sinto que a sensibilidade se vai agudizando.

M: Do seu período artístico, qual foi o que mais o marcou? N.A: Sou muito atraído pela geometria das cidades. Como viajei bastante, acho que é uma coisa interessante, pois são ricas em formas geométricas.

M: Mas disse: “é de minha casa que vejo todas as cidades”… N.A: É, porque no fundo acontece o seguinte: vamos a Berlim, vemos a cidade, ficam certas imagens. Mas, depois, é no atelier que isso se reforça, pinto aquilo que ficou. É em casa que uma pessoa retoca e compõe.

M: “O artista não realiza nenhum trabalho, enquanto o trabalho não realiza o artista”, palavras suas. Qual é o trabalho que o fez sentir mais realizado? N.A: O quadro “Apolo” [agora exposto em Boticas], que saiu facilmente. As leis ordenaram-se praticamente sem grande esforço, saiu quase espontaneamente. Às vezes, é o contrário.

M: Hoje contraria a afirmação do contínuo, que lhe recomendou o curso de arquitectura, de que “a pintura não alimenta o Homem”? N.A: A pintura pode alimentar o Homem. Ele enganou-se. Ainda me lembro das palavras dele: “vá para arquitectura” e eu, cobardemente, segui o seu conselho. Fiz mal. Incompatibilizei-me com o meu mestre, o professor Carlos Ramos, que até me reprovou, com o pretexto de que eu tinha falta de paciência. Geralmente, o arquitecto trabalha em estiradores horizontais, mas eu punha-o na vertical e pintava. Fiz muitos disparates enquanto era aluno de Belas-Artes, no Porto. M: O que é que fica de si em cada trabalho que produz? N.A: Depende. Se sentir que criei uma obra, fico satisfeito, pois ainda estou a criar coisas bonitas. Há orgulho nisto. Ou então, muitas vezes, penso que errei e considero que não fiz coisa nenhuma. Às vezes, as coisas encadeiam-se facilmente. Por sorte talvez, sai a eito. Mas é curioso, quando um quadro nos dá muito trabalho ficamos com a sensação de que é melhor que os outros, porque nos custou mais. Mas depois, reflexão feita, vemos que afinal o esforço nem sempre compensa.

M: Está inerente a cada quadro que pinta uma busca de equilíbrio? N.A: Há sempre uma busca inconsciente de equilíbrio. Muitas vezes, a pessoa repara que conseguiu e, no entanto, pareceu-lhe que não conseguiu. Há muitas hesitações na Arte, tactear até encontrar, sem nunca ter certezas. Só muito tarde é que me surpreendo a olhar para um quadro meu e a dizer “por acaso acertaste, como é que tu conseguiste isto?”. Patrícia Posse

Quadros XL de Nadir Afonso

Mostra inclui quatro obras inéditas A exposição “Nadir Afonso XL” foi inaugurada na última segunda-feira, dia 4, no átrio dos Paços do Concelho de Boticas. Esta é a primeira vez que o pintor flaviense expõe exclusivamente quadros de grande formato, que, desde o início deste século, caracterizam uma nova etapa do seu percurso artístico. “Estes quadros têm mais impacto sobre o público. O trabalho de composição faço-o a uma escala pequena, depois vou ampliando. Esse trabalho de ampliação já não é um trabalho artístico, é algo secundário, porque a elaboração da obra obedece a leis matemáticas e é feita à escala do guache. A ampliação é uma diligência puramente mecânica”, explicou Nadir Afonso. Os visitantes poderão contemplar nove quadros em acrílico sobre tela de grandes dimensões, quatro dos quais inéditos (“Dusseldorf”, “Kuala Lampur”, “Toronto” e “Sienna”), realizados já no século XXI. O artista fez questão de sublinhar que “a obra de arte é tacteada, é uma labuta, uma procura”. “Não é a inteligência que elabora a obra de arte, é a intuição artística, uma intuição puramente sensível que apreende as leis da matemática que estão na geometria das formas”, acrescentou. As obras em exposição pertencem ao acervo da Fundação Nadir Afonso e vão estar patentes de segunda a domingo, das 9h às 13h e das 14h às 17h30, até dia 29 de Agosto. No edifício da autarquia, os visitantes vão poder ainda apreciar aquele que é um dos maiores painéis em azulejo feitos pelo artista, com 11 por 2,4 metros.


publicado por Laura Afonso às 16:49
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Quinta-feira, 31 de Julho de 2008

Jardins da Pensilvânia - Nadir Afonso

Pennsylvania Gardens

 

 

© Nadir Afonso

publicado por Laura Afonso às 22:04
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Sábado, 19 de Julho de 2008

Nadir Afonso face a face com cientista Einstein

 

AGOSTINHO SANTOS in Jornal de Notícias de 16-7-2008

Nadir Afonso é um nome grande da arte contemporânea, mas, além de pintor e arquitecto, é pensador. Em livro a apresentar amanhã, na residência do artista em Cascais, expõe dúvidas "directamente"relacionadas com a teoria de Einstein.

A pintura e a escrita são duas linguagens que conhece bem e a que está ligado desde sempre. Nos intervalos das suas quase intermináveis sessões de pintura, no seu atelié de Cascais, Nadir Afonso refugia-se no escritório e pelo seu punho vai escrevendo, numa letra minuciosa, o que lhe dita a alma. E quase sempre se relaciona com arte e tudo o que a envolve.

Foi assim que nasceram os livros "La sensibilité plastique", "Les mecanismes de la création artistique", "O sentido da arte", "Universo e o pensamento", "Da intuição artística ao raciocínio estético", "Universo e pensamento", "Sobre a vida e obra de Van Gogh" e, agora, "Nadir face a face com Einstein".

Neste livro, a que o JN já teve acesso, o pintor escreve que "desde que procuro criar de minhas próprias mãos, que existem energias nas leis da natureza; energias da lei (entendida como ser de características imutáveis) ou energias legíticas; mas não se trata dessas forças sobrenaturais de que nos falam os estetas - como se fôssemos tocados pela magia das coisas - trata-se de uma motilidade natural incriável e inevitável".

E, mais adiante, escreve: "Indiferente à indiferença que as minhas suposições simplistas possam provocar, permito-me persistir; a lei, na sua verdadeira asserção, não rege de fora nem do alto", age como operador consubstancial do Universo".

 

 


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Domingo, 30 de Março de 2008

NADIR FACE A FACE COM EINSTEIN - NADIR FACE TO FACE WITH EINSTEIN

CapaNadir copy


Novo livro de Nadir Afonso


 


publicado por Laura Afonso às 20:29
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Domingo, 3 de Fevereiro de 2008

Nadir Afonso – A eterna busca das formas

Entrevista de Agostinho Leite publicada no «Jornal de Negócios»

 

Hoje vê melhor certas formas do que via antes. Hoje sente mais precisamente a matemática destas formas. Evoluiu “na acuidades da contemplação das formas”, diz. “Alguma coisa melhorou, outras, coisas se foram perdendo”, concede. “Nada está definido no tempo”.

 

A conversa começou na sala evoluiu para o atelier e acabou na biblioteca, no sótão. É lá que aos quase 87 anos Nadir Afonso olha para a eternidade com a convicção de que Einstein está errado. Vinha o encontro a pro­pósito da exposição na Galeria António Pra­tes em Lisboa. Pouco fica aqui desse pretexto. A viagem co­meçou na sala de estar em Chaves, daí se­guiu para o Porto, passou pelo atelier de Le Corbusier; e pela Galerie Denise René, em Paris, de onde saltou para o Rio de Janeiro, com Niemeyer. Evoluiu da roda vermelha para o círculo, para o Graal, e daí voltou a partir em direcção às estrelas.

O seu trabalho é de uma constância assinalá­vel, sobretudo nas últimas duas décadas. Faz sentido perguntar o que nos propõe hoje Nadir Afonso, em que fase está o seu pensamen­to e a sua pintura?

Normalmente nunca trabalho um qua­dro úniconun1 determinado espaço de tem­po. Geralmente, revenho sempre sobre coi­sas passadas, há uma certa intersecção de coisas actuais com coisas antigas, de manei­ra que, para responder sinceramente à per­gunta, devo dizer que não tenho assim un1a evolução muito bem definida. As coisas in­terrompem-se, as coisas recomeçam, as coi­sas retrocedem, sempre num ritmo que eu próprio não controlo. Por vezes pego num quadro com cinquenta anos e retoco-o, ou­tras vezes estou muito tempo sem olhar para um quadro e depois vejo certos defeitos. Por­que, a meu ver, um quadro versa certas leis, leis de composição que são leis que estão na matemática e essas leis são imutáveis. Por­tanto, o que vejo hoje posso não ter visto an­teriormente, mas não é pelo facto da lei ter mudado. A nossa percepção, a nossa capa­cidade, a nossa acuidade é que vai evoluindo. Hoje vejo melhor certas formas do que via anteriormente. Se bem que já não tenha aquela capacidade de trabalho que tinha há cinquenta anos, certas formas, hoje, sinto mais precisamente a sua matemática. Evoluí na acuidade da contemplação das for­mas, alguma coisa melhorou, outras coisas se foram perdendo. Daí que, para respon­der à pergunta, devo dizer que nada está de­finido no tempo. E isto, acho que é uma res­posta que coincide com a minha maneira de sentir. Geralmente, os artistas vão evoluin­do e sempre, à medida que vão evoluindo, vão dando novas coisas, novos temas, e isso é que dá sequência à sua obra. A meu ver, o tema é secundário. Posso ir para um tema, por exemplo, de representação de corpos de mulher, posso ir para um tema de naves es­paciais mas isso, para mim, é secundário. Porque no fundo, a essência da obra de arte, está nas tais leis, nas leis que eu chamo da morfometria, que são imutáveis.

É muito frequente retirar quadros da parece para retocá-los?

Sim, sim, acontece.

E quando é que um quadro seu está acabado?

Um quadro meu só está acabado quan­do cessa de me oprimir. Quando sinto que nada dele me oprime, começo a pensar que ele deve estar acabado. Mas essa sensação é muito difícil, porque à medida que um indi­víduo vai evoluindo vai encontrando novas fórmulas, novos problemas para resolver: Por isso digo: "Quando é que um quadro está re­solvido? Um quadro está resolvido para sempre na hora da morte. Na hora da morte está acabado". Antes não garanto.

Pensa que é aqui que podemos encontrar uma explicação para a constância no seu trabalho?

 Sim, sim, há uma constância. São as leis imutáveis. As tais leis imutáveis, essas são constantes. Nós podemos evoluir; mas as leis que estão na geometria, na matemática, no círculo, no quadrado, essas leis são imutá­veis. Quando um indivíduo pressente essas leis, quando as sente, depois toda a vida as procura. Pode mudar de tema, o tema pode evoluir, pode ser diferente, posso preferir re­presentar as paisagens, as casas, as árvores, do que representar rostos de pessoas, mas no fundo isso é secundário. Porque a especifici­dade da obra de arte, aquilo que a caracteri­za, são as tais leis que estão na geometria.

O Nadir não esteve sempre na proposta geo­métrica. Passou, dir-se-ia que quase inevita­velmente, pela fase surrealista.

Sim, tudo isso passou.

O surrealismo parece ter sido incontornável para a sua geração

Lá está, enquanto não tive a consciência absoluta que a essência da obra de arte está na geometria, na tal morfometria, andei tac­teando, procurei muitas coisas. Aí é que está o drama do criador, a meu ver. Todos estes impulsos são intuitivos, isto não é raciona­lizado. Um artista não racionaliza, no fun­do, ele tacteia, E neste tacteamento, nesta tacteação, eu procurei muitas coisas, andei pelo surrealismo, andei pelo abstraccionismo, o abstraccionismo ainda hoje o cultivo, mas todas as tentativas eram uma pro­cura porque o indivíduo não sabe.

A circunferência perfeita que desenhou aos quatro anos na parede da sala parece ter-lhe deixado lima impressão digital indelével no seu trabalho, como se marcasse para a vida...

Sim, é possível que nessa altura tivesse pressentido que é na harmonia das for­mas geométricas que reside a obra de arte, a essência.

Pode contar a história dessa circunferência?

            Bem, deu-me para pegar num pincel, já não me lembra, mas acho que era um pincel, mas sei que era em vermelho e pintei um círculo em vermelho. Achei natural­mente interessante e pintei. Depois veio a minha mãe:

- Ai, sujaste a parede!.

Chamavam-me Riri...

- Pintaste a parede, Riri?

            Acho que respondi - contava depois a minha mãe:               

- Então eu era capaz de pintar uma roda tão bem feitinha?

            E já não me repreenderam; porque eu subtilizei as coisas. Escapei à punição com aquela resposta. Isto ficou na história da família.

E o que fizeram esse desenho?

Já não me lembro. Mas a minha mãe e o meu pai não eram pessoas que se exaltassem por eu fazer uma coisa dessas, certamente. Apagaram aquilo e pronto.

Dá alguma explicação especial?

Bem, tinha talvez uns quatro anos e era realmente sensível e senti... o facto de num círculo haver um ponto central equidistante dos pontos periféricos é uma lei realmente extraordinária, ressoa no espírito segundo a forte sensação de plenitude, há uma exactidão no círculo e eu, talvez, já com os meus quatro anos tenha pressentido essa harmonia no círculo e a tenha já expresso. Mas tudo isso foi de uma maneira intuitiva. De uma maneira intuitiva o artista emprega leis. E muitos artistas ainda hoje dizem: "ah, eu com a geometria não quero nada. Eu emprego a minha alma, o meu interior". Isso é um engano. Pensam que não empre­gam a geometria, mas fazem-no de uma maneira intuitiva.

 

Até que ponto a atitude contemporizadora, a cumplicidade até dos seus pais em relação à roda vermelha na parede da sala, foi deter­minante naquilo que é hoje o Nadir Afonso?

Acho que foi realmente a atitude dos meus pais que me impulsionou a seguir as Belas-Artes. Se eles me têm contrariado, cer­tamente não teria seguido. Os meus pais sentiram que eu tinha uma certa tendência para este caminho e aceitaram a minha evo­lução, nunca me contrariaram. E a tal pon­to que eu, quando cheguei às Belas-Artes no Porto, levava um requerimento para o director para me inscrever em pintura. Mas ao entrar nas Belas Artes, na­quele hall interior, antes das escadinhas, havia um contínuo que ali estava, pachor­rento, e eu cheguei ao pé dele e perguntei:

- Onde é aqui a secretaria? Queria fazer a minha inscrição em pintura.

Ele pegou no requerimento e leu:

- Então o senhor tem o curso dos liceus e vai inscrever-se em pintura?! Oh homem, pintura não dá nada! A pintura não alimenta seu homem! Inscreva-se em arquitectura!

E eu, um pouco cobardemente, rasguei o requerimento e fiz outro: "Eu, ... venho respeitosamente requerera vossa excelên­cia se digne inscrever-me em arquitectura. E lá fui para arquitecto um bocado contra­riado. Mas eu nunca fui arquitecto. Fui sem­pre um pintor! E pintei sempre! A minha paixão foi a pintura. Mas fui levado por esse contínuo das Belas-artes que me pressio­nou, que me mostrou a agrura da vida!

Alguma qualidade teve depois como arquitec­to para trabalhar com Le Corbusier é com Óscar Niemeyer.

Sim, mas era mais a necessidade de viver.

O problema económico é importante na vida das pessoas. E quando fui para Paris tive que trabalhar na arquitectura.

E como se deu o caso de ir trabalhar com Le Cor­busier?

Eu, praticamente, quando saí de Portugal, o único arquitecto que conhecia era o Le Cor­busier. De maneira que lá fui bater à porta des­se homem! Já que estamos aqui... E assim foi. Não conhecia mais ninguém! Tive sorte nes­se aspecto. No atelier de Le Corbusier estava tudo no princípio. Isto foi depois da [Segunda Grande] guerra, eu ainda atravessei a pé a fronteira entre Espanha e França, depois da guerra não havia ligação de comboios e eu atravessei a pé com a mala e o rolo das minhas telas, por ali fora, aquela linha-férrea a pé. De­pois, em Paris, encontrei realmente uma certa protecção de Le Corbusier. A vida é isso, jo­guei um bocado forte, podia ter ido bater à porta de outro arquitecto qualquer, mas fui bater à porta do Le Cobusier e tive sorte.

Quantos anos esteve com ele?

Comecei em 1946, estive até 1948. Depois vim defender a tese a Portugal, voltei para Pa­ris, e estive mais ou menos até 1951 com o Le Corbusier. Depois fui para o Rio de Janeiro, estive lá três anos e voltei, depois andei assim um bocado perdido...

E como se deu o caso de trabalhar com o Óscar Niemeyer?

Isso também tem uma história. Eu estava a trabalhar no atelier do Le Corbusier, nessa altura ainda nem havia telefone no atelier, isto em 1947 ou 1948, e vem a secretária dizer-me que estava à porta alguém para falar comigo. Era um indivíduo com uma carta de apresen­tação. Abri-a e era do meu pai:

- Olha, vai aí um filho de um conterrâneo nosso ...  

Um tal Manuel Machado, os pais era de Chaves, amigos do meu pai, foram para o Bra­sil e lá tiveram aquele rapaz, que era arquitec­to. Ele tinha vindo com os pais a Portugal, para ver onde os pais tinham nascido, foram falar com o meu pai, que lhes disse que tinha tam­bém um filho arquitecto, a trabalhar em Paris com o Corbusier. Claro que ele pediu logo ao meu pai uma carta de apresentação para vir ter comigo. E veio. Era uma pessoa cheia de vontade de fazer coisas, alugou lá um carro, andámos os dois de carro, quis andar nas "boi­tes" e naquelas coisas todas, começou a beber, era muito mimado, até que me convidou:

- Venha comigo para o Brasil! Eu, com as minhas possibilidades, e o senhor, com o seu cartaz, com o seu curriculum de arquitecto co­laborador de Le Corbusier, nós fazemos e acontecemos.

Propôs-me um futuro risonho no Brasil, ele com as suas possibilidades, vivia em Niterói, e já não dizia Niteroi, dizia "Niterruá", à fran­cesa, e assim mais uns disparates, e eu ouvia aquilo tudo, até que ele lá foi para o Brasil e deixou-me o contacto. Passado um mês ou isso, comecei a pensar naquele tipo, no Ma­nuel Machado ...

- Vou para o Brasil!

A apareci-lhe lá! Mas, afinal, aquilo que ele dizia era tudo fogo de vista, ele não tinha atelier nem nada, mas trabalhava com o Nie­meyer. De maneira que o que ele me arranjou foi entrar para o atelier do Niemeyer. E lá tra­balhei durante anos com o Óscar Niemeyer, também por acaso.

E como foi, trabalhar com Niemeyer?

Bem, o Niemeyer soube que eu tinha trabalhado com o Le Corbusier, isso deu-me cartaz. Era uma pessoa simpática e assim fomos con­vivendo. Mas em dada altura, ele deu-me um trabalho a fazer, já assim um pouco indepen­dente.

Também porque não se sentia absolutamente fe­Iiz com a arquitectura?

Nunca, nunca ...

Então regressemos à pintura. o Nadir estudou durante anos o trabalho de Vincent Van Gogh, é um pintor que tem uma forte influência no seu período inicial, o que é que o levou a corrigir, li­teralmente, vários dos seus trabalhos e a publi­car um livro com essa ousadia?

Acho que, justamente, a obra de Van Gogh veio reforçar a minha convicção de que a obra de arte obedece a leis matemáticas. Olhar para a obra de Van Gogh e retocá-la, alterá-la, essa intenção foi provocada por aquela minha con­vicção. Observando, com todo o cuidado que tive, a obra de Van Gogh, senti que tinha de­feitos. Ele era um grande artista, mas estava sujeito a pressões para que fizesse obras rápi­das, para vender depressa, foi pressionado por diversas vezes para fazer trabalhos que ele pró­prio não sentia. Ele tinha que despachar qua­se que uma obra por dia para Paris, para o ir­mão as vender. Ele já não acabava as obras. Mas a pintura tem que ser namorada, olhada de um lado e de outro, temos que, a pouco e pouco, apanhar o mecanismo da criação, as formas, como se integram e interpenetram e ele não podia fazer isso, era impulsivo. Tam­bém eu tinha passado por tudo isso e percebi: "Este homem falha!" E como sabia, por ter estudado a sua vida, que ele tinha aquela ne­cessidade de despachar; comecei a retocar as obras dele. Isto parece impossível, mas eu co­mecei a ver; comecei a sentir, comecei a meter-­me na pele do homem e então comecei a reto­car as obras dele.

Quem influenciou quem? Conheceu Victor Vasarely em Paris quando tinha pouco mais de vinte anos, ele era 12 anos mais velho, são evidentes as influências que teve em si, mas há também quem sustente que Vasarely bebeu alguma coi­sa no trabalho do jovem Nadir Afonso.

Há sempre influências. É possível.

Chegaram a expor em conjunto…

 Sim, na Galerie Denise René ....

O que é que Nadir Afonso deve a Victor Vasarely?

A amizade. Tenho a impressão que só o tra­balho faz o artista. Acredito nas influências, mui­to bem, mas o difícil é compor! Eu posso ver um trabalho, mas se manipulei as formas, que resul­tado posso obter? Posso adoptar um tema, um tipo faz foguetes, viagens em naves espaciais, posso realmente interessar-me por isso, mas a verdade é que o trabalho pessoal é tudo. Eu olho para o trabalho do Vasarely e ... Depois há ou­tra coisa, só quando um indivíduo se liberta das influências é que se toma num grande artista. E nós vemos, quando um pintor começa a imitar outro, até pode ter uma boa composição, mas vem logo o: "Isso lembra o pintor A ou B". O grande cuidado que tem um criador é fugir das semelhanças, das influências. Todos têm esse cui­dado. E eu tentei sempre fugir disso.

Há um longo período de criação em Nadir decom­posição urbana. Sofia Marques de Aguiar, uma jo­vem arquitecta do Porto, que iniciou uma tese de doutoramento com base no seu trabalho, sublinha a organização espacial muito rigorosa, quase obs­tinada, e sugeriu que lhe perguntasse de que for­ma Le Corbusier influenciou o seu trabalho?

Um dia, tinha feito uma série de quadros, e mostrei ao chefe do atelier; o Bogdanski. Ele viu aquilo e disse-me que devia mostrar tudo ao Le Corbusier. E eu caí na patetice de ir mos­trar ao Corbusier as minhas pinturazinhas. Es­tava lá há pouco tempo e tal, e fui mostrar aquelas coisas. Acho que o Bogdansk:i fez aqui­lo na sacanice. Lá peguei nos meus desenhi­nhos, estávamos todos no atelier, que era mui­to grande e onde o Corbusier tinha um canti­nho fechado, sem luz, miserável, onde traba­lhava. Lá vou, bati à porta:

-Quem é?

- É o Afonso...

- Entra! O que é que queres?

- vinha aqui mostrar as minhas obras...

- Mostra lá! Isto é teu?! Agora não tenho tempo!!

Eu peguei em tudo e ele:

- Mostra cá, mostra cá! Não, não, agora não tenho tempo!

Parecia maluco, andámos ali, ele tão de­pressa queria ver como não queria, eu muito atrapalhado, a abrir e a fechar a pasta e, a cer­ta altura, caio na camelice de dizer:

- Bem, eu inspirei-me na sua obra... Digo isto e ele exalta-se:

- Isto é teu, não é meu! Onde é que está aqui a minha obra!!!

Foi uma burrice. E de facto, eu nunca me inspirei na obra dele, ele até nem nunca foi bom pintor. Foi um bom arquitecto; fazia assim umas coisas nas horas vagas, umas mulheres e tal, mas nada que me entusiasmasse.

Mas na altura, o que mostrou a te Corbusier tam­bém não seria o que faz hoje, talvez fosse mais próximo do que estava a fazer com Vasarely.

Ora bem ...

Mas por isso retomo a pergunta, até que ponto esse estágio com Le Corbusier influenciou o que faz hoje, ou melhor o que faz desde esse período de composição urbana rigorosa que vemos na sua série "Cidades", por exemplo, e que ainda hoje está presente no seu trabalho?

Eu não digo que não tenha sido influen­ciado, mas se quiser mostrar a mim próprio em que raio fui influenciado... tudo isto é impulsivo, tacteado. Realmente, há a von­tade de saber como aparecem as coisas, mas isso é uma coisa que ninguém sabe. Qual foi a osmose que atravessou a caixa dos pi­rolitos e quais foram as influências? É na­tural se que seja influenciado, mas como, é difícil que consigamos definir. Se não tives­se ido para Paris talvez hoje fizesse outros quadros, tenho pensado nisso muitas vezes, talvez seja óbvio, mas nunca saberei desco­brir como se formou o emaranhado de ca­minhos e descobertas.

Como é que nomeia as suas obras? Como é que chega ao nome de um quadro? Cada quadro tem um nome?

Há pessoas que pensam que estas coisas não se devem dizer mas eu digo-as, porque é a pura verdade. Muitas vezes faço o qua­dro e só depois começo a pensar no nome que lhe hei-de dar. Aparece o nome muito depois do quadro estar feito. Muitas pessoas não compreendem este fenómeno. Pensam que um artista tem uma ideia e depois anda atrás dessa ideia, esquecem que um quadro vai nascendo à medida que as formas cha­mam outras formas. Eu sou conduzido. A partir de certa altura já não conduzo, é a própria composição que me vai esclarecendo. E no fim, se vejo que a composição agrada, que o quadro está bem composto, também eu fico admirado. "Olha, isto está muito bem! Como é que cheguei a isto? Não ha­via nenhuma ideia inicial, nenhuma! E ago­ra, que nome vou dar a este quadro? É ago­ra o quadro que me vai dizer que nome lhe devo chamar!"

O Nadir vem da circunferência, da roda perfeita desenhada na sala da casa onde nasceu, procu­ra uma forma, uma composição perfeita? Qual é o seu Graal?

O círculo é o absoluto da obra de arte. No círculo reside a essência da obra de arte, é a forma absoluta. Um ponto central equidistan­te de um número infinito de pontos, caram­ba, é do arco-da-velha! Depois, claro, o artis­ta não pode representar apenas círculos e qua­drados, tem que, a partir destas leis, procurar novas leis.

O seu Graal é então o círculo? O ovo da criação?

É o ovo da criação, não há dúvida. Ali não há nada a retirar nem a pôr.

Há alguma obra sua em que sinta que esteve mais perto desse absoluto?

Essa é outra pergunta do arco-da-velha! Sempre que acabo uma obra sinto que aque­la é a minha melhor obra, mas depois, logo re­gresso e acho que não é bem aquilo. Mas te­nho obras que acho que são realmente fora de série, que acho que são irretocáveis, em que já não há nada a pôr nem a tirar. Mas às vezes, lá vem um "talvez"...

Nesses quadros, sente que esteve perto do círculo?

Sim, mas aqui a lei é diferente. Já não é a do ponto equidistante de um número infinito de pontos. É a do jogo das tensões matemáticas, extremamente complexas. É isso que tenho tentado explicar nos meus livros, as caracte­rísticas da criação, mas certezas absolutas não as tenho, assumo princípios. Os gregos consi­deravam que todas as obras de arte estavam "matrizadas" pela divina proporção. Mas logo se impuseram outros princípios e leis. E é por isso que esta busca é eterna.

Está a escrever?

Estou, estou...

O quê?

Uma crítica a Einstein...

Uma crítica a Einstein?! E como lhe veio a inspi­ração de criticar o Einstein? Vai corrigi-lo, como fez com Van Gogh?

Comecei a pensar nestas coisas... Uma pes­soa começa a trabalhar, começa a pressentir que há erros em algumas coisas, pode ser que se engane também, mas há um pressentimen­to, através do trabalho, de que alguma coisa está errada. Quando Einstein fala da dilata­ção do tempo, sinto que há alguma coisa que não está bem, porque o tempo é uma relação abstracta. Se é abstracta não é coisa concreta que possa dilatar ou diminuir. O que é a dilatação? É a distensão do corpo, portanto tem que haver corpo. Por isso a dilatação do tem­po soa-me a qualquer coisa falsa. Tentei de­pois compreender essa falsidade na dilatação do tempo e comecei a sentir que o tempo, aquilo a que chamamos tempo, no fundo, é a duração, que existe, mas é igualmente abstracta.

Em que é que Einstein tem que ser corrigido?

É que ele diz que o tempo dilata e o tempo não pode dilatar porque o tempo não existe.

O tempo não existe.

Não existe. O tempo é uma relação abs­tracta. Existe como relação entre o espaço e o movimento.

O que existe então?

O que existe é a duração, a extensão e as leis, que são imutáveis. Como dizia em rela­ção ao círculo, ele é uma lei imutável. Nada a pode destruir; não se pode criar como não se pode destruir, existe no universo, ainda que o homem não a conheça. É imanente.

Não têm portanto origem.

Justamente, não têm origem. A origem, o crescimento das coisas, a reunião de partícu­las na composição da matéria vêm depois da energia, a que eu chamo, legítica, porque é dada pelas leis. As leis geram energia. O come­ço, que não é começo nenhum, a existência está nas energias, que são geradas pelas leis. Nada começa e nada acaba, o que existe sem­pre existiu, é no universo que tudo se desen­volve. Há no cosmos três factores imutáveis: duração, extensão e leis, e estas depois geram num círculo contínuo energias, e estas, por sua vez geram partículas, a matéria, o movimen­to, do movimento dos corpos e o espaço per­corrido nasce o tempo, mas tudo já são acon­tecimentos que são gerados pelas energias.

O que é que quer provar?

Que todo o nosso conceito de tempo está errado. Nós temos uma concepção do tempo dada pela rotação do nosso planeta, que nos levou a pensar que o tempo existia desde o princípio do universo. Mas não, foi o espaço e o movimento que geraram o tempo, mas nós pensamos que o tempo sempre existiu. É um mundo do diabo!

 

publicado por Laura Afonso às 16:45
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Segunda-feira, 28 de Janeiro de 2008

A Cidade Longínqua

The long way City

 

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© Nadir Afonso


publicado por Laura Afonso às 19:15
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Quarta-feira, 23 de Janeiro de 2008

Varsóvia

 

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© Nadir Afonso


publicado por Laura Afonso às 20:51
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Quinta-feira, 10 de Janeiro de 2008

Silvia Aurea

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© Nadir Afonso


publicado por Laura Afonso às 00:13
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