Sexta-feira, 21 de Março de 2008

Nadir face a face com Einstein



Texto extraído do livro «Nadir face a face com Einstein»



O universo como continente, receptáculo, não tem princípio nem tempo, nem fim, e só no seu interior, conteúdo, a energia legítica tudo gera: movimento, espaço, tempo, numa clareza sem enigmas, sem mistérios, sem contradições e sem mistificações.

Eu digo: a lei é a fonte geradora de radiação que anima o Universo; e contudo, este vocábulo fonte não está correctamente aplicado: o facto de haver uma fonte de origem, pressupõe uma acção pre­cedente que na realidade não existe. A energia que constitui o Universo não veio de qualquer lado, porque nenhuma coisa foi criada: a energia jaz como igualmente jaz esse princípio – lei – que a sus­tenta. Ao contrário daquilo que sensorialmente se nos depara como natural, o seu ser não vem do passado nem do alto; não rege de fora. Ele age no interior do próprio fenómeno como elemento da sua composição intrínseca. E contudo, estas afirmações possuem uma história tão longa como a minha obra tacteada no seio das formas; tão forte como esta certeza actual, entremeada de pertur­bantes interrogações. Se, como penso, e há longos anos clamo, a essência da Arte não reside no objecto – a Arte está na geometria, matemática subjacente que anima o objecto – então o que sinto além deste e me toca senão a energia que emana das suas normas? Desde os meus primeiros trabal­hos, formulo estas perguntas: as leis irradiam elas energia? Não será o efeito do seu impacto esta emoção que me toma? Respostas a que tão tenazmente me devotei e a partir das quais não foi de ânimo leve se os meus estudos confluem e se confinam a esta derradeira conclusão: a lei é a entidade natural que nenhuma força pode criar e nenhuma força pode eliminar: ela rejeita a sua: criação como rejeita a sua negação.      

- Simples conjecturas? Certamente, mas qual será o conceito que em cosmogonia não se reveste de suposição pura? Estas crenças situam-se pelo menos no termo duma diligência vivida no" trabalho das formas. Não hesito em afirmar: do modo com tentarei expô-la, a minha tese é única no sentido em que, apelando à originalidade e à singularidade da lei – como autocinesia –, não com­porta o seu termo antitético que o pensamento analítico normalmente reclama: qualquer outra hipó­tese causal se me afigura inconcebível. Onde está, com efeito, o poder que supera - ou a causa que precede -, disposto a suspender a lei das formas na sua elementaridade, a força capaz de impedir que essa constante realidade que é a sua génese matemática exista, em si, distinta do objecto que a, exprime e representa?

Quer os elementos, quer as substâncias físicas fundem-se em normas geométricas. O que poderá existir de auto-suficiente senão a singularidade, a extrema simplicidade, a exactidão do círculo? Todo o espaço cósmico se reduz, na sua essência, a essa regra espacial absoluta; e qualquer outro princí­pio, seja físico seja geométrico, é já uma complexidade proveniente dela. Síntese de todos os elementos da Natureza, o círculo exprime a forma elevada à sua redução última; ele encerra...essa intuição demiúr­gica, hoje perdida: na Antiguidade Clássica, geométrica era a forma cosmométrica por excelência... e a esse sentido original, àquela pura mónade platónica, aqui regresso e nela tentarei expressar-me:

A solução do problema cósmico, na mesma via perceptiva do fenómeno artístico, requer, à partida, um acto de reflexão fundado sobre o conceito de elementaridade e de simplicidade.

©  Nadir Afonso


publicado por Laura Afonso às 17:38
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim


. ver perfil

. seguir perfil

. 9 seguidores

.pesquisar

 

.Dezembro 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
13
14
15
16

17
18
19
20
21
22
23

24
25
26
27
28
29
30

31


.posts recentes

. A RTP Memória apresenta N...

. Nadir Afonso nasceu a 4 d...

. Caravana

. A Arte e a Matemática. Ex...

. Convite para a exposição ...

. Európio

. Visita ao Museu de Arte C...

. Açores

. Museu de Arte Contemporân...

. No Centro de Artes Nadir ...

. Nadir Afonso em Chaves

. Nadir Afonso em Castelo B...

. Reflexos no Museu

. Convite

. Figuras fabulosas

. «Nadir Afonso: Arquitetur...

. Exposição - Nadir Afonso,...

. Convite para a exposição ...

. Nadir Afonso: Arquitetura...

. Trágedia

. Serpente

. Ópera

. Sevilha

. Apoie esta Petição. Vamos...

. Vamos salvar o edifício d...

. Destruição da Panificador...

. Lille

. Exposição de Nadir Afonso...

. Ópera

. Visita ao Museu de Arte C...

.arquivos

.tags

. todas as tags

.links

SAPO Blogs

.subscrever feeds