Domingo, 3 de Fevereiro de 2008

Nadir Afonso – A eterna busca das formas

Entrevista de Agostinho Leite publicada no «Jornal de Negócios»

 

Hoje vê melhor certas formas do que via antes. Hoje sente mais precisamente a matemática destas formas. Evoluiu “na acuidades da contemplação das formas”, diz. “Alguma coisa melhorou, outras, coisas se foram perdendo”, concede. “Nada está definido no tempo”.

 

A conversa começou na sala evoluiu para o atelier e acabou na biblioteca, no sótão. É lá que aos quase 87 anos Nadir Afonso olha para a eternidade com a convicção de que Einstein está errado. Vinha o encontro a pro­pósito da exposição na Galeria António Pra­tes em Lisboa. Pouco fica aqui desse pretexto. A viagem co­meçou na sala de estar em Chaves, daí se­guiu para o Porto, passou pelo atelier de Le Corbusier; e pela Galerie Denise René, em Paris, de onde saltou para o Rio de Janeiro, com Niemeyer. Evoluiu da roda vermelha para o círculo, para o Graal, e daí voltou a partir em direcção às estrelas.

O seu trabalho é de uma constância assinalá­vel, sobretudo nas últimas duas décadas. Faz sentido perguntar o que nos propõe hoje Nadir Afonso, em que fase está o seu pensamen­to e a sua pintura?

Normalmente nunca trabalho um qua­dro úniconun1 determinado espaço de tem­po. Geralmente, revenho sempre sobre coi­sas passadas, há uma certa intersecção de coisas actuais com coisas antigas, de manei­ra que, para responder sinceramente à per­gunta, devo dizer que não tenho assim un1a evolução muito bem definida. As coisas in­terrompem-se, as coisas recomeçam, as coi­sas retrocedem, sempre num ritmo que eu próprio não controlo. Por vezes pego num quadro com cinquenta anos e retoco-o, ou­tras vezes estou muito tempo sem olhar para um quadro e depois vejo certos defeitos. Por­que, a meu ver, um quadro versa certas leis, leis de composição que são leis que estão na matemática e essas leis são imutáveis. Por­tanto, o que vejo hoje posso não ter visto an­teriormente, mas não é pelo facto da lei ter mudado. A nossa percepção, a nossa capa­cidade, a nossa acuidade é que vai evoluindo. Hoje vejo melhor certas formas do que via anteriormente. Se bem que já não tenha aquela capacidade de trabalho que tinha há cinquenta anos, certas formas, hoje, sinto mais precisamente a sua matemática. Evoluí na acuidade da contemplação das for­mas, alguma coisa melhorou, outras coisas se foram perdendo. Daí que, para respon­der à pergunta, devo dizer que nada está de­finido no tempo. E isto, acho que é uma res­posta que coincide com a minha maneira de sentir. Geralmente, os artistas vão evoluin­do e sempre, à medida que vão evoluindo, vão dando novas coisas, novos temas, e isso é que dá sequência à sua obra. A meu ver, o tema é secundário. Posso ir para um tema, por exemplo, de representação de corpos de mulher, posso ir para um tema de naves es­paciais mas isso, para mim, é secundário. Porque no fundo, a essência da obra de arte, está nas tais leis, nas leis que eu chamo da morfometria, que são imutáveis.

É muito frequente retirar quadros da parece para retocá-los?

Sim, sim, acontece.

E quando é que um quadro seu está acabado?

Um quadro meu só está acabado quan­do cessa de me oprimir. Quando sinto que nada dele me oprime, começo a pensar que ele deve estar acabado. Mas essa sensação é muito difícil, porque à medida que um indi­víduo vai evoluindo vai encontrando novas fórmulas, novos problemas para resolver: Por isso digo: "Quando é que um quadro está re­solvido? Um quadro está resolvido para sempre na hora da morte. Na hora da morte está acabado". Antes não garanto.

Pensa que é aqui que podemos encontrar uma explicação para a constância no seu trabalho?

 Sim, sim, há uma constância. São as leis imutáveis. As tais leis imutáveis, essas são constantes. Nós podemos evoluir; mas as leis que estão na geometria, na matemática, no círculo, no quadrado, essas leis são imutá­veis. Quando um indivíduo pressente essas leis, quando as sente, depois toda a vida as procura. Pode mudar de tema, o tema pode evoluir, pode ser diferente, posso preferir re­presentar as paisagens, as casas, as árvores, do que representar rostos de pessoas, mas no fundo isso é secundário. Porque a especifici­dade da obra de arte, aquilo que a caracteri­za, são as tais leis que estão na geometria.

O Nadir não esteve sempre na proposta geo­métrica. Passou, dir-se-ia que quase inevita­velmente, pela fase surrealista.

Sim, tudo isso passou.

O surrealismo parece ter sido incontornável para a sua geração

Lá está, enquanto não tive a consciência absoluta que a essência da obra de arte está na geometria, na tal morfometria, andei tac­teando, procurei muitas coisas. Aí é que está o drama do criador, a meu ver. Todos estes impulsos são intuitivos, isto não é raciona­lizado. Um artista não racionaliza, no fun­do, ele tacteia, E neste tacteamento, nesta tacteação, eu procurei muitas coisas, andei pelo surrealismo, andei pelo abstraccionismo, o abstraccionismo ainda hoje o cultivo, mas todas as tentativas eram uma pro­cura porque o indivíduo não sabe.

A circunferência perfeita que desenhou aos quatro anos na parede da sala parece ter-lhe deixado lima impressão digital indelével no seu trabalho, como se marcasse para a vida...

Sim, é possível que nessa altura tivesse pressentido que é na harmonia das for­mas geométricas que reside a obra de arte, a essência.

Pode contar a história dessa circunferência?

            Bem, deu-me para pegar num pincel, já não me lembra, mas acho que era um pincel, mas sei que era em vermelho e pintei um círculo em vermelho. Achei natural­mente interessante e pintei. Depois veio a minha mãe:

- Ai, sujaste a parede!.

Chamavam-me Riri...

- Pintaste a parede, Riri?

            Acho que respondi - contava depois a minha mãe:               

- Então eu era capaz de pintar uma roda tão bem feitinha?

            E já não me repreenderam; porque eu subtilizei as coisas. Escapei à punição com aquela resposta. Isto ficou na história da família.

E o que fizeram esse desenho?

Já não me lembro. Mas a minha mãe e o meu pai não eram pessoas que se exaltassem por eu fazer uma coisa dessas, certamente. Apagaram aquilo e pronto.

Dá alguma explicação especial?

Bem, tinha talvez uns quatro anos e era realmente sensível e senti... o facto de num círculo haver um ponto central equidistante dos pontos periféricos é uma lei realmente extraordinária, ressoa no espírito segundo a forte sensação de plenitude, há uma exactidão no círculo e eu, talvez, já com os meus quatro anos tenha pressentido essa harmonia no círculo e a tenha já expresso. Mas tudo isso foi de uma maneira intuitiva. De uma maneira intuitiva o artista emprega leis. E muitos artistas ainda hoje dizem: "ah, eu com a geometria não quero nada. Eu emprego a minha alma, o meu interior". Isso é um engano. Pensam que não empre­gam a geometria, mas fazem-no de uma maneira intuitiva.

 

Até que ponto a atitude contemporizadora, a cumplicidade até dos seus pais em relação à roda vermelha na parede da sala, foi deter­minante naquilo que é hoje o Nadir Afonso?

Acho que foi realmente a atitude dos meus pais que me impulsionou a seguir as Belas-Artes. Se eles me têm contrariado, cer­tamente não teria seguido. Os meus pais sentiram que eu tinha uma certa tendência para este caminho e aceitaram a minha evo­lução, nunca me contrariaram. E a tal pon­to que eu, quando cheguei às Belas-Artes no Porto, levava um requerimento para o director para me inscrever em pintura. Mas ao entrar nas Belas Artes, na­quele hall interior, antes das escadinhas, havia um contínuo que ali estava, pachor­rento, e eu cheguei ao pé dele e perguntei:

- Onde é aqui a secretaria? Queria fazer a minha inscrição em pintura.

Ele pegou no requerimento e leu:

- Então o senhor tem o curso dos liceus e vai inscrever-se em pintura?! Oh homem, pintura não dá nada! A pintura não alimenta seu homem! Inscreva-se em arquitectura!

E eu, um pouco cobardemente, rasguei o requerimento e fiz outro: "Eu, ... venho respeitosamente requerera vossa excelên­cia se digne inscrever-me em arquitectura. E lá fui para arquitecto um bocado contra­riado. Mas eu nunca fui arquitecto. Fui sem­pre um pintor! E pintei sempre! A minha paixão foi a pintura. Mas fui levado por esse contínuo das Belas-artes que me pressio­nou, que me mostrou a agrura da vida!

Alguma qualidade teve depois como arquitec­to para trabalhar com Le Corbusier é com Óscar Niemeyer.

Sim, mas era mais a necessidade de viver.

O problema económico é importante na vida das pessoas. E quando fui para Paris tive que trabalhar na arquitectura.

E como se deu o caso de ir trabalhar com Le Cor­busier?

Eu, praticamente, quando saí de Portugal, o único arquitecto que conhecia era o Le Cor­busier. De maneira que lá fui bater à porta des­se homem! Já que estamos aqui... E assim foi. Não conhecia mais ninguém! Tive sorte nes­se aspecto. No atelier de Le Corbusier estava tudo no princípio. Isto foi depois da [Segunda Grande] guerra, eu ainda atravessei a pé a fronteira entre Espanha e França, depois da guerra não havia ligação de comboios e eu atravessei a pé com a mala e o rolo das minhas telas, por ali fora, aquela linha-férrea a pé. De­pois, em Paris, encontrei realmente uma certa protecção de Le Corbusier. A vida é isso, jo­guei um bocado forte, podia ter ido bater à porta de outro arquitecto qualquer, mas fui bater à porta do Le Cobusier e tive sorte.

Quantos anos esteve com ele?

Comecei em 1946, estive até 1948. Depois vim defender a tese a Portugal, voltei para Pa­ris, e estive mais ou menos até 1951 com o Le Corbusier. Depois fui para o Rio de Janeiro, estive lá três anos e voltei, depois andei assim um bocado perdido...

E como se deu o caso de trabalhar com o Óscar Niemeyer?

Isso também tem uma história. Eu estava a trabalhar no atelier do Le Corbusier, nessa altura ainda nem havia telefone no atelier, isto em 1947 ou 1948, e vem a secretária dizer-me que estava à porta alguém para falar comigo. Era um indivíduo com uma carta de apresen­tação. Abri-a e era do meu pai:

- Olha, vai aí um filho de um conterrâneo nosso ...  

Um tal Manuel Machado, os pais era de Chaves, amigos do meu pai, foram para o Bra­sil e lá tiveram aquele rapaz, que era arquitec­to. Ele tinha vindo com os pais a Portugal, para ver onde os pais tinham nascido, foram falar com o meu pai, que lhes disse que tinha tam­bém um filho arquitecto, a trabalhar em Paris com o Corbusier. Claro que ele pediu logo ao meu pai uma carta de apresentação para vir ter comigo. E veio. Era uma pessoa cheia de vontade de fazer coisas, alugou lá um carro, andámos os dois de carro, quis andar nas "boi­tes" e naquelas coisas todas, começou a beber, era muito mimado, até que me convidou:

- Venha comigo para o Brasil! Eu, com as minhas possibilidades, e o senhor, com o seu cartaz, com o seu curriculum de arquitecto co­laborador de Le Corbusier, nós fazemos e acontecemos.

Propôs-me um futuro risonho no Brasil, ele com as suas possibilidades, vivia em Niterói, e já não dizia Niteroi, dizia "Niterruá", à fran­cesa, e assim mais uns disparates, e eu ouvia aquilo tudo, até que ele lá foi para o Brasil e deixou-me o contacto. Passado um mês ou isso, comecei a pensar naquele tipo, no Ma­nuel Machado ...

- Vou para o Brasil!

A apareci-lhe lá! Mas, afinal, aquilo que ele dizia era tudo fogo de vista, ele não tinha atelier nem nada, mas trabalhava com o Nie­meyer. De maneira que o que ele me arranjou foi entrar para o atelier do Niemeyer. E lá tra­balhei durante anos com o Óscar Niemeyer, também por acaso.

E como foi, trabalhar com Niemeyer?

Bem, o Niemeyer soube que eu tinha trabalhado com o Le Corbusier, isso deu-me cartaz. Era uma pessoa simpática e assim fomos con­vivendo. Mas em dada altura, ele deu-me um trabalho a fazer, já assim um pouco indepen­dente.

Também porque não se sentia absolutamente fe­Iiz com a arquitectura?

Nunca, nunca ...

Então regressemos à pintura. o Nadir estudou durante anos o trabalho de Vincent Van Gogh, é um pintor que tem uma forte influência no seu período inicial, o que é que o levou a corrigir, li­teralmente, vários dos seus trabalhos e a publi­car um livro com essa ousadia?

Acho que, justamente, a obra de Van Gogh veio reforçar a minha convicção de que a obra de arte obedece a leis matemáticas. Olhar para a obra de Van Gogh e retocá-la, alterá-la, essa intenção foi provocada por aquela minha con­vicção. Observando, com todo o cuidado que tive, a obra de Van Gogh, senti que tinha de­feitos. Ele era um grande artista, mas estava sujeito a pressões para que fizesse obras rápi­das, para vender depressa, foi pressionado por diversas vezes para fazer trabalhos que ele pró­prio não sentia. Ele tinha que despachar qua­se que uma obra por dia para Paris, para o ir­mão as vender. Ele já não acabava as obras. Mas a pintura tem que ser namorada, olhada de um lado e de outro, temos que, a pouco e pouco, apanhar o mecanismo da criação, as formas, como se integram e interpenetram e ele não podia fazer isso, era impulsivo. Tam­bém eu tinha passado por tudo isso e percebi: "Este homem falha!" E como sabia, por ter estudado a sua vida, que ele tinha aquela ne­cessidade de despachar; comecei a retocar as obras dele. Isto parece impossível, mas eu co­mecei a ver; comecei a sentir, comecei a meter-­me na pele do homem e então comecei a reto­car as obras dele.

Quem influenciou quem? Conheceu Victor Vasarely em Paris quando tinha pouco mais de vinte anos, ele era 12 anos mais velho, são evidentes as influências que teve em si, mas há também quem sustente que Vasarely bebeu alguma coi­sa no trabalho do jovem Nadir Afonso.

Há sempre influências. É possível.

Chegaram a expor em conjunto…

 Sim, na Galerie Denise René ....

O que é que Nadir Afonso deve a Victor Vasarely?

A amizade. Tenho a impressão que só o tra­balho faz o artista. Acredito nas influências, mui­to bem, mas o difícil é compor! Eu posso ver um trabalho, mas se manipulei as formas, que resul­tado posso obter? Posso adoptar um tema, um tipo faz foguetes, viagens em naves espaciais, posso realmente interessar-me por isso, mas a verdade é que o trabalho pessoal é tudo. Eu olho para o trabalho do Vasarely e ... Depois há ou­tra coisa, só quando um indivíduo se liberta das influências é que se toma num grande artista. E nós vemos, quando um pintor começa a imitar outro, até pode ter uma boa composição, mas vem logo o: "Isso lembra o pintor A ou B". O grande cuidado que tem um criador é fugir das semelhanças, das influências. Todos têm esse cui­dado. E eu tentei sempre fugir disso.

Há um longo período de criação em Nadir decom­posição urbana. Sofia Marques de Aguiar, uma jo­vem arquitecta do Porto, que iniciou uma tese de doutoramento com base no seu trabalho, sublinha a organização espacial muito rigorosa, quase obs­tinada, e sugeriu que lhe perguntasse de que for­ma Le Corbusier influenciou o seu trabalho?

Um dia, tinha feito uma série de quadros, e mostrei ao chefe do atelier; o Bogdanski. Ele viu aquilo e disse-me que devia mostrar tudo ao Le Corbusier. E eu caí na patetice de ir mos­trar ao Corbusier as minhas pinturazinhas. Es­tava lá há pouco tempo e tal, e fui mostrar aquelas coisas. Acho que o Bogdansk:i fez aqui­lo na sacanice. Lá peguei nos meus desenhi­nhos, estávamos todos no atelier, que era mui­to grande e onde o Corbusier tinha um canti­nho fechado, sem luz, miserável, onde traba­lhava. Lá vou, bati à porta:

-Quem é?

- É o Afonso...

- Entra! O que é que queres?

- vinha aqui mostrar as minhas obras...

- Mostra lá! Isto é teu?! Agora não tenho tempo!!

Eu peguei em tudo e ele:

- Mostra cá, mostra cá! Não, não, agora não tenho tempo!

Parecia maluco, andámos ali, ele tão de­pressa queria ver como não queria, eu muito atrapalhado, a abrir e a fechar a pasta e, a cer­ta altura, caio na camelice de dizer:

- Bem, eu inspirei-me na sua obra... Digo isto e ele exalta-se:

- Isto é teu, não é meu! Onde é que está aqui a minha obra!!!

Foi uma burrice. E de facto, eu nunca me inspirei na obra dele, ele até nem nunca foi bom pintor. Foi um bom arquitecto; fazia assim umas coisas nas horas vagas, umas mulheres e tal, mas nada que me entusiasmasse.

Mas na altura, o que mostrou a te Corbusier tam­bém não seria o que faz hoje, talvez fosse mais próximo do que estava a fazer com Vasarely.

Ora bem ...

Mas por isso retomo a pergunta, até que ponto esse estágio com Le Corbusier influenciou o que faz hoje, ou melhor o que faz desde esse período de composição urbana rigorosa que vemos na sua série "Cidades", por exemplo, e que ainda hoje está presente no seu trabalho?

Eu não digo que não tenha sido influen­ciado, mas se quiser mostrar a mim próprio em que raio fui influenciado... tudo isto é impulsivo, tacteado. Realmente, há a von­tade de saber como aparecem as coisas, mas isso é uma coisa que ninguém sabe. Qual foi a osmose que atravessou a caixa dos pi­rolitos e quais foram as influências? É na­tural se que seja influenciado, mas como, é difícil que consigamos definir. Se não tives­se ido para Paris talvez hoje fizesse outros quadros, tenho pensado nisso muitas vezes, talvez seja óbvio, mas nunca saberei desco­brir como se formou o emaranhado de ca­minhos e descobertas.

Como é que nomeia as suas obras? Como é que chega ao nome de um quadro? Cada quadro tem um nome?

Há pessoas que pensam que estas coisas não se devem dizer mas eu digo-as, porque é a pura verdade. Muitas vezes faço o qua­dro e só depois começo a pensar no nome que lhe hei-de dar. Aparece o nome muito depois do quadro estar feito. Muitas pessoas não compreendem este fenómeno. Pensam que um artista tem uma ideia e depois anda atrás dessa ideia, esquecem que um quadro vai nascendo à medida que as formas cha­mam outras formas. Eu sou conduzido. A partir de certa altura já não conduzo, é a própria composição que me vai esclarecendo. E no fim, se vejo que a composição agrada, que o quadro está bem composto, também eu fico admirado. "Olha, isto está muito bem! Como é que cheguei a isto? Não ha­via nenhuma ideia inicial, nenhuma! E ago­ra, que nome vou dar a este quadro? É ago­ra o quadro que me vai dizer que nome lhe devo chamar!"

O Nadir vem da circunferência, da roda perfeita desenhada na sala da casa onde nasceu, procu­ra uma forma, uma composição perfeita? Qual é o seu Graal?

O círculo é o absoluto da obra de arte. No círculo reside a essência da obra de arte, é a forma absoluta. Um ponto central equidistan­te de um número infinito de pontos, caram­ba, é do arco-da-velha! Depois, claro, o artis­ta não pode representar apenas círculos e qua­drados, tem que, a partir destas leis, procurar novas leis.

O seu Graal é então o círculo? O ovo da criação?

É o ovo da criação, não há dúvida. Ali não há nada a retirar nem a pôr.

Há alguma obra sua em que sinta que esteve mais perto desse absoluto?

Essa é outra pergunta do arco-da-velha! Sempre que acabo uma obra sinto que aque­la é a minha melhor obra, mas depois, logo re­gresso e acho que não é bem aquilo. Mas te­nho obras que acho que são realmente fora de série, que acho que são irretocáveis, em que já não há nada a pôr nem a tirar. Mas às vezes, lá vem um "talvez"...

Nesses quadros, sente que esteve perto do círculo?

Sim, mas aqui a lei é diferente. Já não é a do ponto equidistante de um número infinito de pontos. É a do jogo das tensões matemáticas, extremamente complexas. É isso que tenho tentado explicar nos meus livros, as caracte­rísticas da criação, mas certezas absolutas não as tenho, assumo princípios. Os gregos consi­deravam que todas as obras de arte estavam "matrizadas" pela divina proporção. Mas logo se impuseram outros princípios e leis. E é por isso que esta busca é eterna.

Está a escrever?

Estou, estou...

O quê?

Uma crítica a Einstein...

Uma crítica a Einstein?! E como lhe veio a inspi­ração de criticar o Einstein? Vai corrigi-lo, como fez com Van Gogh?

Comecei a pensar nestas coisas... Uma pes­soa começa a trabalhar, começa a pressentir que há erros em algumas coisas, pode ser que se engane também, mas há um pressentimen­to, através do trabalho, de que alguma coisa está errada. Quando Einstein fala da dilata­ção do tempo, sinto que há alguma coisa que não está bem, porque o tempo é uma relação abstracta. Se é abstracta não é coisa concreta que possa dilatar ou diminuir. O que é a dilatação? É a distensão do corpo, portanto tem que haver corpo. Por isso a dilatação do tem­po soa-me a qualquer coisa falsa. Tentei de­pois compreender essa falsidade na dilatação do tempo e comecei a sentir que o tempo, aquilo a que chamamos tempo, no fundo, é a duração, que existe, mas é igualmente abstracta.

Em que é que Einstein tem que ser corrigido?

É que ele diz que o tempo dilata e o tempo não pode dilatar porque o tempo não existe.

O tempo não existe.

Não existe. O tempo é uma relação abs­tracta. Existe como relação entre o espaço e o movimento.

O que existe então?

O que existe é a duração, a extensão e as leis, que são imutáveis. Como dizia em rela­ção ao círculo, ele é uma lei imutável. Nada a pode destruir; não se pode criar como não se pode destruir, existe no universo, ainda que o homem não a conheça. É imanente.

Não têm portanto origem.

Justamente, não têm origem. A origem, o crescimento das coisas, a reunião de partícu­las na composição da matéria vêm depois da energia, a que eu chamo, legítica, porque é dada pelas leis. As leis geram energia. O come­ço, que não é começo nenhum, a existência está nas energias, que são geradas pelas leis. Nada começa e nada acaba, o que existe sem­pre existiu, é no universo que tudo se desen­volve. Há no cosmos três factores imutáveis: duração, extensão e leis, e estas depois geram num círculo contínuo energias, e estas, por sua vez geram partículas, a matéria, o movimen­to, do movimento dos corpos e o espaço per­corrido nasce o tempo, mas tudo já são acon­tecimentos que são gerados pelas energias.

O que é que quer provar?

Que todo o nosso conceito de tempo está errado. Nós temos uma concepção do tempo dada pela rotação do nosso planeta, que nos levou a pensar que o tempo existia desde o princípio do universo. Mas não, foi o espaço e o movimento que geraram o tempo, mas nós pensamos que o tempo sempre existiu. É um mundo do diabo!

 

publicado por Laura Afonso às 16:45
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim


. ver perfil

. seguir perfil

. 9 seguidores

.pesquisar

 

.Dezembro 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
13
14
15
16

17
18
19
20
21
22
23

24
25
26
27
28
29
30

31


.posts recentes

. A RTP Memória apresenta N...

. Nadir Afonso nasceu a 4 d...

. Caravana

. A Arte e a Matemática. Ex...

. Convite para a exposição ...

. Európio

. Visita ao Museu de Arte C...

. Açores

. Museu de Arte Contemporân...

. No Centro de Artes Nadir ...

. Nadir Afonso em Chaves

. Nadir Afonso em Castelo B...

. Reflexos no Museu

. Convite

. Figuras fabulosas

. «Nadir Afonso: Arquitetur...

. Exposição - Nadir Afonso,...

. Convite para a exposição ...

. Nadir Afonso: Arquitetura...

. Trágedia

. Serpente

. Ópera

. Sevilha

. Apoie esta Petição. Vamos...

. Vamos salvar o edifício d...

. Destruição da Panificador...

. Lille

. Exposição de Nadir Afonso...

. Ópera

. Visita ao Museu de Arte C...

.arquivos

.tags

. todas as tags

.links

SAPO Blogs

.subscrever feeds