Sábado, 1 de Dezembro de 2007

A Quadratura do Círculo - Texto de Vladimiro Nunes publicado in SOL

Arquitecto acidental, trabalhou com Le Corbusier e Niemeyer, mas o nome de Nadir Afonso fez-se nas telas.
Alguém toca à campainha. Laura, a mulher do pintor, levanta-se e abre a porta ao carteiro. Nem de propósito, a correspondência endereçada a Nadir Afonso traz selos desenhados pelo próprio. Os três selos em questão – de 30, 45 e 61 cêntimos – fazem parte de uma nova série consagrada a Grandes Artistas Portugueses.
Prestes a completar 87 anos, Nadir Afonso conquistou há muito um estatuto especial na arte portuguesa, mas nem por isso anda menos irrequieto. Pelo contrário, a sua mais recente exposição – Futuro, que pode ser vista na Galeria Diário de Notícias, em Lisboa, até 24 de Novembro – é composta por obras recentes, incluindo as duas maiores telas que alguma vez pintou, com mais de dois metros de comprimento por outro tanto de largura. «Cheguei à conclusão de que um indivíduo se sente mais tocado por um quadro de grandes dimensões. Confesso que eu próprio, quando vejo um, me sinto mais dominado por ele, porque tem mais força. O volume também impressiona, não é só a composição».
Entre a infância e a adolescência, aplicou-se em «copiar» o mais fielmente que conseguia as formas da natureza, até tomar consciência de que «a obra de arte não estava na representação dos objectos». «Por volta dos 17 ou 18 anos, pus-me a pensar que tinha de haver mais alguma coisa. E pensei, na minha ingénua idade, que a alma, o espírito do artista, também era expresso». Mais tarde, chegou à conclusão contrária. «Como fui sempre muito coca-bichinhos, comecei a magicar que não era a alma, que tinha de haver leis. Depois de muito trabalhar e ‘cocar’, percebi que as leis eram as da geometria: as do quadrado, do círculo, do triângulo».
Foi assim que chegou ao abstraccionismo geométrico, a que tem dedicado toda a sua obra. A casa espaçosa onde vive e trabalha, em Cascais, está repleta de telas, guaches e escritos teóricos. Os muitos livros que escreveu, resume-os nesta frase: «A perfeição, a originalidade, a evocação, todas essas qualidades naturais nos emocionam, mas são subjectivas. A quarta qualidade, a ‘morfometria’, a matemática, a pura harmonia das formas, é imutável e realça as outras qualidades. Aí é que está a arte». Ao contrário do que se possa pensar, afirma Nadir, o rigor não exclui o sentimento. «A geometria é um espectáculo de exactidão, mas também é muito emocionante. Quando estou triste, não vejo televisão. Pego num círculo e começo a olhar-lhe para o centro. Ou a harmonizar um quadrado com um círculo. Isso consola-me e acalma-me».
Nome cigano
Segundo filho do poeta Artur Maria Afonso e de sua mulher, Palmira Rodrigues Afonso, Nadir nasce na Rua dos Codeçais, em Chaves, a 4 de Dezembro de 1920. O nome, pouco vulgar, deve-o a um encontro acidental. «O meu pai pega em mim e leva-me ao Registo Civil, no centro da cidade. No caminho, encontra um cigano amigo dele. ‘Então Artur, onde vais?’. ‘Vou ali registar o meu filho’. ‘E que nome vais pôr ao rapaz?’. ‘Orlando’. ‘Orlando?! Muito Orlando há-de ser ele! Põe-lhe antes Nadir’. O meu pai lá pensou que o homem tinha razão, chegou ao registo e pôs-me ‘Nadir Afonso Rodrigues’».
Em casa, o irmão Lereno, um ano e meio mais velho, passa a chamá-lo Riri (a primeira sílaba lê-se como a segunda) e o diminutivo acompanha-o ao longo de toda a infância. Temperamental e idealista, Riri sonha ganhar asas, ser rei. Na inconsciência dos seus quatro anos, ignora que a primeira pintura é já um auspício das que hão-de vir. «Foi na sala de uma casa antiga onde vivi na minha infância em Chaves. A parede era branca e lembro-me perfeitamente de pegar num pincel e em tinta e de fazer um círculo vermelho na parede. A minha mãe veio e repreendeu-me. ‘Sujaste a parede, Riri?’. ‘Ó mãe, como é que eu era capaz de fazer um circulo tão bem feitinho?’. Ela encabulou-se e pensou que realmente não podia ter sido eu. Só anos mais tarde é que confessei».
Depois de concluir o liceu em Chaves, Nadir ruma à Escola Superior de Belas-Artes do Porto. Tem 18 anos e está decidido a fazer-se pintor, mas falta-lhe aprender que o caminho para a realização pessoal não se percorre em linha recta. Nesse tempo, embora os cursos de arquitectura e de pintura sejam ministrados no mesmo estabelecimento, há entre eles uma diferença abissal: para ingressar no primeiro, é necessário o curso dos liceus; para frequentar o segundo, a instrução primária é quanto basta.
Alheio a tudo isso, o candidato apresenta-se na escola, num dia de Setembro, para fazer a inscrição. «Levava na mão o requerimento dirigido ao director: ‘Eu, fulano de tal, venho respeitosamente requerer a V. Exa. que se digne a aceitar-me como aluno de pintura’. À entrada estava um funcionário sentado a dormitar. Perguntei-lhe onde era a secretaria e ele puxa-me do requerimento, lê-o e diz-me: ‘Ó homem, então você tem o curso dos liceus e vem inscrever-se em pintura? A pintura não alimenta o seu homem. Inscreva-se em arquitectura’. Aquilo meteu-se em mim e eu, cobardemente, porque o funcionário me tinha assustado, vim cá fora, rasguei o requerimento, e fiz outro: ‘Eu, fulano de tal, venho respeitosamente requerer a V. Exa. que se digne e aceitar-me como aluno de arquitectura’».
Mesmo depois de trocado o cavalete pelo estirador, Nadir não deixa nunca de pintar. Em Abril de 1946, na ressaca da Segunda Guerra Mundial e quando lhe falta ainda defender a tese de fim de curso (só o fará dois anos mais tarde), parte para Paris. «Fui de Irun [Espanha] a Hendaye [França] a pé, porque não havia ligação por comboio. Fui pela linha férrea afora e atravessei a fronteira, uma ponte do Inferno!». Enroladas debaixo do braço, vão algumas das suas telas, para lhe servirem de cartão-de-visita. À chegada, instala-se no Quartier Latin, consegue uma bolsa de estudo do Governo francês, inscreve-se no curso de pintura da École des Beaux-Arts e mergulha de cabeça na vertigem da arte.
Mortos, Corbusier e Niemeyer
Em Paris, Nadir tenta vingar como pintor. Debaixo de uma chuva miudinha de Novembro, dirige-se à Rue de Seine, feudo de pintores onde, porta sim, porta não, há galerias para ver. Na primeira em que entra, depara-se com uma madame sentada à secretária e mostra-lhe os seus quadros. Nada. Nem uma nesga de expressão, só a completa apatia de um par de olhos fixos no vazio. «Perguntei-lhe se não havia por ali um pintor e ela indicou-me um tipo sentado ao fundo da galeria, para aí com a idade que eu tenho hoje». Aproxima-se e torna a exibir os quadros. Mais uma vez, nada de reacção. «Quando o tipo nem ligou a ponta de um chavelho ao que lhe estava a mostrar, gritei ‘Vous êtes des morts!’ – ‘Sois todos uns mortos!’ e saí porta fora».
Nadir não desarma e entra na segunda galeria, apenas para encontrar «outras duas tipas execráveis». Como se não bastasse, a madame da primeira vez, despeitada, resolvera segui-lo e diz às vizinhas: ‘Já vi essa pintura e é uma grande porcaria!’. «As três desnalgaram-se a rir, numa chacota de tal maneira violenta que eu peguei nas telas, desapareci e jurei a mim próprio: ‘Tu nunca mais mostras isto a ninguém, pá! Acabou’. E acabou mesmo. Nunca mais saí para mostrar a minha banha da cobra a ninguém». O juramento mantém-se até hoje: nunca uma exposição de Nadir se deve a iniciativa própria.
Desmoralizado, começa a pensar em formas de «ganhar uns dinheiros». A arquitectura volta a impor-se como alternativa à penúria. «A ideia que me veio à cabeça foi trabalhar com Le Corbusier, uma vez que já tinha tido contacto com a obra dele nas Belas_artes do Porto. Procurei o endereço dele, 35, Rue de Sèvres, e lá fui eu». Mesmo sem diploma, consegue ser recebido pelo arquitecto-chefe do ateliê, André Wogenscky, de quem viria a tornar-se amigo para vida. Começa a trabalhar no dia seguinte. «A guerra tinha acabado há pouco e ainda andavam a organizar o ateliê, que ainda estava nos princípios. Fui dos primeiros colaboradores de Corbusier [que era suíço] em Paris».
«Le Corbusier era amigo do seu amigo, mas não admitia que alguém lhe fizesse sombra. Como todos os indivíduos geniais, era um egocêntrico. Era capaz de gestos de uma grande amabilidade, mas se lhe falassem em tipos importantes, importante era ele. Tinha coisas do diabo, aquele homem». Apesar do temperamento instável, o Mestre, também ele artista, permite que Nadir dedique as manhãs à pintura sem lhe descontar no ordenado. Durante algum tempo, serve-se do ateliê do célebre pintor cubista francês Fernand Léger (1881-1955). Mas «o afastamento em que se vive nos grandes meios de arte» levam-no a uma encruzilhada.
Ao receber a vista de um grupo de brasileiros luso-descendentes, é incentivado por Manuel Machado, colaborador de Oscar Niemeyer, a partir para o Rio de Janeiro. A 14 de Dezembro de 1951, embarca para o Brasil e inicia uma colaboração de três anos com o criador de Brasília. «Niemeyer é, como Corbusier, um génio, mas, ao contrário deste, tinha um trato menos polido para com os colaboradores. Tinha bom carácter, mas exaltava-se facilmente e era bastante espirra-canivetes, muito impulsivo». O sufoco de uma vida dupla, dividida entre os constrangimentos da arquitectura e a obsessão da pintura, há-de durar até 1965. Só então abandona de vez o estirador para se dedicar em exclusivo à sua obra plástica e teórica (escreve mais de uma dezena de livros).
A angústia do último traço
Hoje, Nadir já não cria quadros de raiz. Só a quantidade de desenhos e guaches à espera de serem aperfeiçoados e passados à tela davam para preencher muitas mais vidas. O processo pode demorar anos ou décadas, porque «há sempre qualquer coisa que não está bem». Por isso, as pinturas não têm data. São obras em aberto, equações incompletas, sempre sujeitas ao escrutínio matemático do pintor. «Um quadro só está pronto quando cessa de me oprimir», disse em entrevista recente ao Diário de Notícias.
Pelo contrário, angústia do papel em branco foi coisa que nunca teve. «No início, o raciocínio não intervém. O primeiro impulso é automático, arbitrário, não exige esforço. A cor não interessa, nem a imaginação. É o vazio completo. Pego no lápis que me veio à mão e sai o que sair. À medida que vou acrescentado mais traços é que se vão criando relações matemáticas. Depois o último traço é que é o diabo, porque está sujeito a toda a matemática interior da composição».
Os dias de Nadir começam cedo, por volta das oito da manhã – às vezes antes, se, como acontece com frequência, tiver dificuldades em dormir. «A primeira coisa que faço é olhar para as imagens. Vou às estantes onde tenho guaches e passo-os em revista, até que algum me choca e eu o retoco». Parar é que são elas.«É precisa uma grande ginástica mental. Se pudesse, depois do almoço, já não voltava». Mas volta, e não tem hora certa para largar o trabalho. «O meu relógio é a cabeça. Quando me começa a doer, obrigo-me a parar. Tem mesmo de ser. Se não, não durmo». Nadir sabe que precisa do sono, porque, quando acordar, aguarda-o um recomeço que nunca se esgota. É a lei do círculo a funcionar. Ininterruptamente.

publicado por Laura Afonso às 11:34
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1 comentário:
De cao amarelo a 5 de Dezembro de 2007 às 20:17
http://www.caoamarelo.org/



O C Ã O A M A R E L O de qinta a domingo , exposição de kim na velha
estação da CP
a vos deslumbrar de cores, os Ervas Daninhas no Bar da GNR, curtas no
auditório,





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