Sexta-feira, 16 de Novembro de 2007

NADIR AFONSO, OU A VISIBILIDADE DA HARMONIA - João de Sá - «Terra Quente»

 

 

Muito me aprouve ter visto Nadir Afonso. Aprumado e desenvolto, com os seus 86 anos. Vagueando, atento e lúcido (o esboço de um sorriso feliz a indiciar encontros consumados em regiões superiores), entre os 27 quadros expostos - 20 acrílicos sobre tela e 7 guaches sobre o papel. Por vezes atingindo uma quase configuração anímica, como se estivesse refazendo um ou outro pormenor de uma tela, ou estes, galvanizantes, o estivessem recotando a ele.

Surpreendeu-me a sua vitalidade, o seu rigor de negrilho flaviense, a fluidez do seu discorrer. Há muitos, muitos anos que não víamos, apesar de andarmos sempre a combinar um encontro para irmos tomar uma "bica" a um café de Cascais e entabularmos conversações acerca do nosso Reino Maravilhoso e do não menos maravilhoso reino da sua arte superlativa. Mas... os dias deslizam com incontida velocidade e o nosso propósito nunca mais se cumpre. Fica a nossa amizade, que não embrandece. E as palavras de uma das suas últimas cartas de 2002: "Há longos anos que não vemos e contudo a nosso amizade perdura." E perdurará enquanto subsistir a nossa lembrança.
Esta recíproca estima vem de muito longe, de uma tarde esplêndida de Agosto, com Dionisio e Deméter em delírio, ao longo do vale de Chaves; de um passeio pelas margens do Tâmega, o artista dizendo Pessoa (Álvaro de Campos), para definir as cintilações da horta, em termos estésicos; de uma noite passada sob as ameixeiras do seu jardim, onde o ouvi narrar com desartifício, na companhia do comum amigo Carlos Rodrigues, lances da sua vida estuante, como se quisesse proceder a uma catarse que contribuísse para clarificar aspectos das suas teorias estéticas.
É que Nadir Afonso, além de artista da mais alta estripe, é, outrassim, um original investigador no domínio da estética, sendo autor de uma obra vasta e complexa onde avultam "Espacillimité", "La Sensibilité Plastique", "Mécanismes de la Création Artistique", "O Sentido da Arte", "Da Intuição artística ao raciocínio estético, "Van Gogh", a que a mesquinhez do nosso meio cultural tem sido alheia.
Não vislumbro, na moderna pintura portuguesa nenhum outro artista que venha erguendo uma obra de tão singular estatura e nos faculte, simultaneamente, uma tentativa (ou várias) de dilucidação das noites consteladas que presidem ao acto da criação.
Todo o artista produz numa região longínqua e solitária só acessível a iniciados. Temos de nos resignar com os indícios, ficando fora do nosso campo de análise o núcleo - espécie de castelo kafkiano - que, no começo, julgávamos acessível à nossa indagação.
Não se ajusta a esta atmosfera o proceder de Nadir. Acentuada vocação de partilha dos deslumbres, com quem quer que seja, que acompanham a génese da criação artística. Pretende mostrar-nos não só como nasce um quadro mas, também e principalmente, facultar-nos o porquê da sua aparição.

Não é nosso intuito, aqui e agora, enveredarmos por tão brumosos quão fascinantes caminhos. Vamos "esquecer" os mecanismos accionadas para que uma tela aconteça. Vamos admitir que só o artista tem acesso às qualidades que lhe permitem atingir, segundo a sua ordenação, a especifidade da Arte: perfeição, evocação, originalidade e harmonia.
Fixemo-nos nesta última etapa - Harmonia (nossa capacidade cognoscente a aproximar-se das mónadas leibnizianas e a descortinar a figura lendária de Pitágoras errando pelas praias de Crotona, de noite, na esperança de escutar a música das esferas...).
Harmonia é a característica que ressalta, de imediato, da contemplação dos quadros expostos. Tudo se nos oferece numa concertação intemporal, um Todo que é assim e não poderia ser de outra maneira. Nada a acrescentar-lhe ou a substrair-lhe. O tudo (to pan) é aquilo a que nada falta (Platão, "Teeteto"). São absolutos gerados por leis eternas, que presidem à sua execução, e assim ficaram numa majestade "franjada de infinito", como presenças libertas de uma realidade mais perfeita.
Nesta arquitectura do Inominado ocorre-me, naturalmente, a tradição pitagórica e a doutrina platónica. Será discutível a filiação, condescendo, mas não consigo desembaracar-me do seu enleio.

Na redução das coisas a números, como pretendiam os pitagóricos, convém sublinhar que "arithomós", que se relacionava com "harmonia", não era apenas a designação de número, mas "quantidade " equivalia a referir "forma", que tem "solenidade ideal dos grandes gestos na descoberta humana e rompe sem dúvida na "intuição" no seio do próprio movimento dialéctico da indagação dialógica". E Aristóteles, aludindo aos pitagóricos, escreve na "Metafísica" que todo o céu é harmonia e número.
Por outro lado, a passagem do sensível ao inteligível apoia-se, segundo Platão (diálogo "Ménon"), na demonstração geométrica. No "Protágoras" é admitido que a vida do homem necessita de cadência e harmonia. E no "Timeu", diálogo da senectude do filósofo, os quatro elementos são ordenados mediante a acção das "Formas" (determinações geométricas) e dos números.

É bem verdade que questões desta índole - coordenadas culturais laivadas de conceitos metafísicos e místicos, se prestam às mais diversas e controvertidas interpretações. Mas é mais denominador comum de todas elas um ideal de harmonia e equilíbrio estético que se evidenciam, como valor imutável, na obra imensa de Nadir Afonso.
De todo o modo, tentar reduzir a ontologia à fenomenologia com o argumento de que nada existe detrás do fenómeno, ou então, se algo há se assemelha à inapreensibilidade de gato Schrodinger, que sempre se esconde ou dissimula, é empobrecer o propósito metafísico de se penetrar no enigma, ou dar início ao elogio fúnebre da arte.
"Futuro" se intitula a valiosa mostra de pintura do egrégio artista flaviense. Considero premonitória a designação, já que, naturalmente, surge relacionada com o tempo que está para vir e que bem pode trazer-nos surpresas no âmbito da evolução estética, numa aproximação da harmonia da objectividade, de modo a tornar mais legível o "real". E estou a referir-me, concretamente, a três quadros expostos: "Procissão em Veneza", "Apolo" e "Gôndolas".

No entanto, a estrutura das cidades mágicas de Nadir e as linhas ondeantes dos contornos femininos remetem para os princípios já enunciados - espuma das profundidades a emprestar rosto à esfinge que ficará submersa para sempre. Recordemos, a propósito de corpos femininos, "Criselefantinas": recuo até à estatuária da Grécia antiga, às esculturas de marfim e vestes de ouro. Ou "Le Rêve" e "Estátuas Móveis", o velho Platão de novo a fazer-se ouvir: "uns pensam que são deuses, outros voam em sonhos e são como os pássaros", sugestões de estátuas aladas povoando espaços onde não habita a solidão.

"Futuro" de Nadir Afonso: apelo à descoberta duma pureza total, duma harmonia visível para que germine entre os homens a concórdia, o amor e a alegria.

João de Sá - «Terra Quente»

 


publicado por Laura Afonso às 12:20
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