Quinta-feira, 25 de Outubro de 2007

Entrevista de Nadir Afonso a Ana Vitória in Jornal de Notícias

«Nenhum quadro está acabado»




Aos 86 anos, Nadir Afonso ainda fala de muitos projectos, muitos esboços, muitos quadros inacabados


Aos 86 anos, Nadir Afonso ainda fala de muitos projectos, muitos esboços, muitos quadros inacabados. No seu ateliê há dezenas de rolos de tela onde pontuam projecções de obras minuciosamente recriadas a tira-linhas régua e compasso. Nesta fase, Nadir confessa que já só lhe apetece fazer quadros de grandes dimensões. Tão grandes que lhe fogem pelo estirador fora.


Tem pela geometria um fascínio que lhe vem dos tempos de infância. Defende que a obra de arte é regida por leis matemáticas. Com desassombro, também afirma \\" A inspiração é produto do trabalho\\". Lembra-se de aos quatro anos ter desenhado um círculo e evoca este momento como tendo sido a sua primeira obra de arte. Nadir Afonso é um homem que assume a pesquisa estética como um espécie de demanda da pedra filosofal. \\"O pintor procura a harmonia, que é a lei matemática que está nas formas\\", sustenta. Aos 87 anos, diz- -se \\"assumidamente pessimista\\" e admite que sempre que vê um dos seus quadros continua a sentir necessidade de retocá-lo.

A partir de hoje, na Galeria \\"Jornal de Notícias\\", são mostradas algumas das suas obras mais recentes, numa exposição intitulada \\"Futuro\\".



JN|Comecemos pelo seu nome invulgar Nadir. Onde foram os seus pais desencantá-lo?



Nadir Afonso|Na verdade, os meus pais queriam que eu me chamasse Orlando. Mas quando o meu pai foi ao registo civil para me registar encontrou pelo caminho um amigo cigano, que sugeriu que me chamassem Nadir. E assim foi.



Nas sua infância em Chaves já desenhava muito?

Lembro-me de que aos 4 anos já andava a sujar as paredes com tintas. Um dia fiz um círculo vermelho na parede.



O facto de ter sido um círculo era algo premonitório...

Sim. Já nessa altura havia em mim talvez a intuição, não ainda a consciência disso.



E a inspiração, acontece ou procura-se?

Tenho a impressão de que a inspiração é produto do trabalho. É ele que dá o grande impulso à criatividade.



O gosto pelo desenho tornou-o notado nos primeiros anos de escola?

Sim. Tive um professor que me punha a fazer desenho e caligrafia que os meus colegas tinham depois de copiar.

Avançando no tempo, o Nadir conta uma história engraçada. Diz que foi para arquitectura por acaso...

Sim. A escolha inicial era a pintura. Nunca quis ser arquitecto. Só que um funcionário da Escola de Belas-Artes do Porto convenceu-me a fazer o contrário. Cobardemente, inscrevi-me em Arquitectura. Foi um desastre.

Por que diz que foi um desastre? Pelo menos acabou o curso...

Acabei, mas muito mal, porque eu nunca fui arquitecto.

E então decidiu ir para Paris...

Pois. Fui para Paris antes de acabar o curso. Já não podia mais suportar-me a mim próprio aqui. A minha vontade era entrar no próprio clima da arte que se vivia na altura em Paris. A pretexto de arranjar contactos em Paris para o grupo Os Independentes, de que fazia parte, juntamente com o Júlio Resende, o Fernando Lanhas e o Júlio Pomar, fui um pouco à aventura. Claro que nunca tratei de contactos nenhuns.

E em Paris teve a sorte de conhecer logo gente interessante....

É verdade. O Portinari fez uma grande exposição e um colega brasileiro, que era muito conhecido no meio intelectual parisiense, apresentou-mo. Eu tinha 25 anos e, estupidamente, decidi mostrar as minhas pinturas ao Portinari. Portanto, já levava comigo engatada a estupidez de vender a minha banha da cobra. E o homem foi extremamente generoso comigo, até gostou daquilo.

Generoso ao ponto de o ajudar a expor em Paris?

Sim. Arranjou maneira de eu ter uma bolsa de estudo.

Expôs muito novo em Portugal, com pouco mais de 24 anos. Mas, a sua primeira grande exposição individual aconteceu já muito depois, aos 36, em Paris....

É verdade. E aos 28 anos regressei a Portugal para defender a minha tese de arquitectura.

E esse foi um momento polémico...

Pois foi. Na minha tese defendi a ideia de que a arquitectura não é uma arte. Ainda hoje penso isto. Há uma diferença entre a procura do arquitecto e a procura do pintor.

A sua pintura começou por ter uma feição expressionista, foi oscilando pela figuração humana, sobretudo feminina, e progrediu para a abstracção geométrica. Foi difícil chegar a esta fórmula?

Só tacteando. Continuo por isso a tactear. É um jogo infernal.

Quando olha os seus quadros mais antigos considera- -os acabados em definitivo?

Nunca acho que estejam acabados. Tenho sempre a mesma necessidade de os retocar. A perfeição é evolutiva. O que hoje é perfeito já não o é noutro meio e noutro tempo.

Quando vai para o ateliê como acontece o \\"estado criativo\\"?

Ando a tentar responder a essa pergunta há 86 anos!

Mas o que é que o inspira?

As leis da obra de arte nada têm a ver com o estado de alma do artista. Pensar que sim é uma ilusão.

E como chega aos títulos das suas obras?

Para mim, o título é secundário. Até porque quando estou a trabalhar não estou sempre à volta do mesmo quadro. E há sempre coisas que vou mudando. Ainda bem que quem compra os meus quadros não me leva lá a casa!

Admite que poderia alterar algo nesses quadros?

Claro. Por vezes descubro que há formas que desconversam.

Dizia então que o título de uma obra nada lhe diz....

As pessoas pensam que o artista anda de smoking a pintar. Mas isto é um trabalho muito rebolado pelo chão. Acho até que o artista devia ter um espaço onde se deitasse de vez em quando, para ir agonizando. Por isso, os títulos são secundários. Não é o mais importante da obra. Por exemplo, acabo um quadro e pedem-me um título para o catálogo. Vou ao dicionário e ao acaso escolho uma palavra. Dresden. E assim fica. Há quadros com nomes de cidades onde nunca pus os pés.

Mas nem sempre foi assim. Por exemplo, fez uma exposição sobre o Porto e as obras que lá estão plasmam na realidade o seu olhar sobre a cidade...

Nesse tempo ainda era sincero. Agora não.

\\"Futuro\\", a exposição que Nadir Afonso inaugura hoje na Galeria do Jornal de Notícias, espaço onde já havia exposto em 1979, apresenta um conjunto de 27 obras, entre acrílicos sobre tela e guaches sobre papel.

Os trabalhos, quase todos nomes de cidades, fazem parte do acervo da Colecção da Fundação Nadir Afonso.

Os mais recentes, datados deste ano, e ambos de grandes dimensões , são \\"Apolo\\", que inspira a capa do catálogo, e \\"Gôndolas\\".

Escolher 27 obras foi um trabalho difícil para o pintor que aqui surge na dupla função de comissário.

Por isso, no catálogo que acompanha a exposição, Nadir Afonso escreve \\"Quando observo o volume de trabalhos por concluir (como se um dia os pudesse concluir), só um pensamento me percorre: este bem podia ser o ponto médio da minha carreira\\".

Mas não é. Como ele próprio admite, \\"as centenas de estudos que se vão adensando só me permitem pensar no futuro, apesar das limitações do corpo. Grande parte da minha obra, que está em estudos, aguarda impacientemente essas telas finais. Telas para o futuro, porque talvez mais bem compreendidas nos tempos vindouros do que no presente\\".
Ana Vitória in JN, 2007-06-29


publicado por Laura Afonso às 15:16
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