Quarta-feira, 24 de Outubro de 2007

Entrevista de Nadir Afonso a Paula Lobo in Diário de Notícias

"Um quadro só está acabado quando cessa de me oprimir"


PAULA LOBO (TEXTO) RODRIGO CABRITA (FOTOS)
Entrevista com mestre Nadir Afonso, pintor

É Nadir Afonso quem dá início à entrevista:

"Tenho a impressão de que a vida de um indivíduo não deve ter muita relação com a sua sensibilidade artística. Geralmente as pessoas vêem aí uma conexão, mas um indivíduo pode ter um carácter distinto daquilo que pinta."

Isso é conversa de crítico?

É conversa de pessoas que até são inteligentes e cultas mas têm tendência a criar relação com o estado de alma, o temperamento e a pintura.

Mas não há sempre relação do artista com o mundo, um plasmar de impressões na obra?

Posso aldrabar-lhe a coisa... [risos] Mas, na minha opinião, o trabalho é feito por tacteamentos e há leis que ele apreende de maneira intuitiva.

Há um gesto inicial...

E essa forma chama outras, por relações matemáticas que o pintor não distingue ao nível do raciocínio. Mas sente.

No seu caso, a sensibilidade às formas manifestou-se muito cedo. Aos quatro anos desenhou um círculo perfeito na parede da sala.

Sim, chamem-lhe uma obsessão! As leis da Matemática persistem através dos tempos e lugares, ao passo que as outras qualidades - a perfeição, a evocação, a originalidade - vão evoluindo. Aquilo que caracteriza a obra de arte são as tais leis, a que chamo morfometrias. Quando vemos um triângulo equilátero, a sua exactidão ressoa no espírito e sentimos plenitude. Os gregos antigos privilegiavam a divina proporção.

É a divina proporção que procura nas obras?

Os gregos elevaram ao nível da consciência uma lei matemática: o rectângulo de ouro - e descobri que não é mais do que a lei do círculo conjugada com a lei do quadrado. Há um número infinito de possibilidades de organizar as formas. Durante muitos anos andei atrás da matemática, pensando que procurava o reflexo da alma!

Quando percebeu isso?

Em França. Também acreditava no impulso criador e depois comecei a pensar que isso não rima com coisa nenhuma. Se o quadro tem algum erro, mais tarde ou mais cedo descubro-o!

É por isso, por estar sempre a trabalhar sobre eles, que nunca data os seus quadros?

Exactamente. Vou retocando até acertar. É por isso que escrevi um livro sobre Van Gogh, em que tento provar que ele não acabava os quadros porque tinha necessidade de os despachar para o irmão, para ganhar dinheiro.

Esse estudo sobre Van Gogh foi considerado o melhor livro de arte da Feira de Frankfurt de 2003 mas teve pouca repercussão em Portugal. Isso magoa-o?

Se uma pessoa se põe a pensar nisso, desiste.

As suas obras, apesar de abstracções geométricas, têm matriz na realidade. Há cidades, corpos, referências...

Sim, faço a conjugação: a perfeição dos objectos, a originalidade, a evocação, mas metrizadas pela lei matemática. A diferença entre o mau e o bom pintor é que este imprime leis matemáticas e parece-nos que a perfeição é mais justa, a evocação mais sincera, a originalidade mais espontânea.

Quem não percebe nada de pintura sente-o?

Sim, a harmonia está lá. Eu, por deformação profissional, procuro o truque. [risos] Foi o que fiz com Van Gogh e tive o desplante de o fazer com outros, incluindo o próprio Da Vinci - tem um quadro com Santa Ana, Maria, o Menino Jesus e um cordeirinho que tem uma pata que está horrível! [risos] Para mim, um quadro só está acabado quando cessa de me oprimir.

Vasarely elogiou-o como um dos artistas mais originais da abstracção geométrica...

Mas há críticos de arte... Enfim, tenho de aceitar.

Foi para o Porto estudar Pintura e um contínuo convenceu-o a ir para Arquitectura.

Foi, foi! Ia fazer a matrícula e perguntei-lhe onde era a secretaria. "Então você tem o curso dos liceus e vai-se inscrever em Pintura? Vá para Arquitectura, olhe que a pintura não alimenta o seu homem!". E eu, cobardemente, assustei-me. Mas nunca fui, nunca me senti arquitecto.

Fez o curso, foi para Paris e trabalhou com Le Corbusier.

Mas andei sempre de cavalo para burro. Só aos 50 anos é que tive atelier, em Chaves. Trabalhei com Corbusier e tive grandes amigos, como o Candilis [com quem fez projectos na Martinica e Agadir], que tinha o que me faltava: diplomacia!

Tinha ido em 1946 para a Escola de Belas- -Artes de Paris e Cândido Portinari arranjou- -lhe uma bolsa do governo francês...

Como levava de Portugal uns dinheiros, andei por ali a pintar. Na altura, o Portinari fez uma grande exposição em Paris e um brasileiro que eu conhecia apresentou-mo. Mostrei-lhe uns quadros. Eu não sou político, mas Portinari era, era comunista e bem relacionado com a Frente Popular. Durante dois anos fui bolseiro do governo e fui bater à porta do Corbusier.

E como se dava com ele?

Nunca tive confiança nenhuma. Devo ter sido dos primeiros estrangeiros a entrar para o atelier.Bati à porta e veio o chefe, André Wogenscky. Comecei logo.

Le Corbusier, também pintor, deu--lhe as manhãs para pintar...

Sim, e não descontando no ordenado! Comecei a pintar no atelier do Léger. Pintava durante meses e, quando o dinheiro acabava, era arquitecto. Quando precisavam de acabar projectos contratavam colaboradores. Andei muito tempo nessa agonia, tinha 40 anos e era um escravo.

Conheceu um brasileiro que lhe disse que tinha atelier e afinal era colaborador de Oscar Niemeyer. Foi assim que foi para o Rio de Janeiro. Como era a vossa relação?

Com Le Corbusier havia debates, diálogo. Ali não. Niemeyer fazia e "pega, desenrasca-te". Era uma responsabilidade do Diabo! Eu estava a fazer um casino, a geometrizar os croquis dele, mas inverti um pouco a orientação em relação aos pontos cardeais. Quando o chamei e lhe disse, ainda me lembro... "vem para aqui esculhambar os planos". Foi malcriado e reagi! Não me pôs fora, mas nunca mais olhou para mim. Depois mandou-me para São Paulo, abrir a sucursal para tratar do IV Centenário da cidade. Era a maneira de me despachar, mas também uma grande oportunidade. Passei a ser chefe. Mas se não sei receber ordens, também não as sabia dar! [risos]

Então regressou a Portugal.

Não tinha jeito. Voltei ao Rio, tive problemas com a minha companheira e entrei em depressão. Fui para Paris.

Nunca se meteu em políticas, mas sempre foi um homem de esquerda.

A minha filosofia é a do Marx, mas o Marx não era político! O Maio de 68 tirou-me muitas convicções. Sou das esquerdas, mas estava na cidade universitária de Paris - com 47 anos, tinha recebido uma bolsa da Gulbenkian, como pintor - e via aqueles jovens sair de manhã com mocas, como quem ia trabalhar. Tinham era vontade de partir montras e aparecer na televisão...

Quando regressou a Portugal isolou-se do meio artístico. Sentiu-se desenquadrado?

Antes de ir para Paris havia o Grupo dos Independentes, a fraternidade era impressionante, mas quando cheguei era cada um por si. Dos grandes amigos das Belas-Artes do Porto ainda conservo o Júlio Resende e o Fernando Lanhas.

Sempre manteve uma relação muito forte com as suas origens, em Chaves.

É, tenho lá grandes amigos. Ainda há quem me chamam "Riri", como quando era pequeno!

Como está a sua fundação, com projecto do arquitecto Álvaro Siza?

A Laurinha sabe melhor do que eu... [Responde Laura Afonso, a mulher: "Está na fase das expropriações. Esses terrenos junto ao rio, ao abrigo do Programa Polis, seriam para a Câmara de Chaves fazer uma piscina. Assim, fazem a piscina mais acima. Mas estas coisas demoram].

publicado por Laura Afonso às 14:55
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