Quinta-feira, 21 de Abril de 2011

Da Intuição Artística ao Raciocínio Estético

 

 

 

 

Texto extraído de «Da Intuição Artística ao Raciocínio Estético»

 

Sempre pensei, desde que procuro criar de minhas próprias mãos, que existem energias nas leis da Natureza; mas não se trata, dessas forças sobrenaturais de que nos falam os estetas — como se fossemos tocados pela magia das coisas — trata-se, de uma motilidade natural incriável e inevitável. A lei é uma entidade auto-energética porque não há causa que a possa gerar nem causa que a possa aniquilar[1].

E como creio que essas normas existem na obra realizada pelo Homem, igualmente sinto que elas existem no Universo. Indiferente à indiferença que as minhas suposições simplistas possam provocar, permito-me persistir; a lei, tal como eu a sinto, na sua entidade íntegra, não rege de fora nem do alto; age como operador consubstancial do Universo; e muitas das suas regras não são, tão pouco, nossas desconhecidas: o círculo inscrito no quadrado é igual à metade do círculo circunscrito. E esta simples correlação é, em si, tanto antes como depois do seu encontro com o homem, uma fonte de energia. Poderiam nunca existir concretamente, círculos, quadrados ou triângulos equiláteros mas os princípios que os regem nenhuma Força ou Ser superior os poderia destruir; eles encerram essa natureza peculiar que não é originada nem originária porque no seio do cosmos não há origens; nem tão pouco, haveria necessidade de preexistir o Universo para existirem as leis e a sua energia imanente que, suporte de toda a força natural emerge do Nada; neste mesmo instante cósmico gera-se o efeito sem possuir a causa e o Ser universal existe sem ponto de partida, posto que não há ponto de partida onde apenas presidem as entidades atemporais, a que chamamos leis.

A superfície esférica é quatro vezes maior do que a superfície circular de igual raio; e no triângulo rectângulo, o quadrado inscrito na hipotenusa é igual à soma dos quadrados inscritos nos catetos. Ainda que jamais tivessem existido estas figuras geométricas ou alguém para concebe-las, a lei seria sempre auto-existente. De quem depende ou quem poderia suspender tal precisão matemática? A esta interrogação ficou continuamente suspenso o meu pensamento e já na minha ideia de adolescente, nenhuma outra realidade me pareceu tão primordial como a lei que imponderável, tudo rege[2].

Na natureza, quando sobre ela mantemos um conceito materialista, o processo evolutivo da criação assevera-se orientado por essas normas físicas, geométricas, matemáticas que o cérebro do homem — o mais alto nível de desenvolvimento da matéria — pode reflectir e reproduzir.

Assim se justifica que as obras de criação humana — as artes e as ciências — sejam regidas por princípios naturais… Mas esses princípios regem apenas; eles não agem? A Geometria do Universo de que nos falam os cosmólogos não será a mesma que o artista encontra na sua obra? Se as leis preexistem latentes no cosmos qual será a sua relação com todo esse mecanismo que o anima? A meu ver, semelhantes estudos filosóficos antes de se afirmarem nomeadamente na estética, deveriam definir a sua resposta a essa pergunta.

 
Nadir Afonso
 

© Nadir Afonso




[1] As implicações filosóficas do nosso conceito apriorístico das leis, a sua oposição a Hegel e a Marx, o reconhecimento, com Engels, de qualidades evolutivas e leis imutáveis, encontram-se desenvolvidas nas últimas páginas do presente estudo.

[2] Ver «Universo e o Pensamento», pag, 127-138, Livros Horizonte.

 


publicado por Laura Afonso às 15:54
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